Nas fotos dessa festa, o retrato forte da América

O Casamento de Rachel é o melhor trabalho de Jonathan Demme em anos

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

13 de fevereiro de 2009 | 00h00

Tem havido uma rara unanimidade em relação à jovem Anne Hathaway, por seu papel em O Casamento de Rachel. Desde que o novo filme de Jonathan Demme concorreu em Veneza, em 2008, havia a expectativa - afinal concretizada - de que Anne ganhasse indicação para o Oscar. Após O Diário da Princesa e O Diabo Veste Prada, Anne dá um salto de qualidade na carreira em papel com alta voltagem dramática. Mas não é só a atriz que se sai bem. Demme assina seu melhor filme em anos, consolidando a recuperação que começou com o remake de Sob o Domínio do Mal (The Manchurian Candidate). Veja trailer de O Casamento de RachelUma maneira fácil de desacreditar O Casamento de Rachel seria dizer que Robert Altman já fez este filme nos anos 70 - com o título de Cerimônia de Casamento. Existem similaridades. Altman, como fazia desde Nashville, soltava sua câmera entre personagens e a festa carregava um luto não formalizado porque, para não comprometer a cerimônia, a família escondia no sótão o cadáver da matriarca, que não poderia ter escolhido momento mais impróprio para morrer. Agora, existe outro fantasma assombrando a festa de Demme, mas o morto é mais antigo - o irmão que Anne, na sua fase junkie, matou num acidente, provocando a dissolução da família, e ela própria indo parar num instituto psiquiátrico, do qual sai somente para o casamento da irmã, Rachel.Anne entra no filme meio sonâmbula, uma estranha - ou pelo menos inconveniente - para o pai, a irmã, que reconstruíram suas vidas, mas têm de conviver com o passado doloroso. A relação com a mãe é mais complicada e Debra Winger faz uma personagem bergmaniana - como a Ingrid Bergman de Sonata de Outono - que não suporta a filha, não a perdoando por haver sobrevivido. O confronto das duas rende uma bela cena. A mãe, Debra Winger, esbofeteia Anne, a quem culpa pela morte do filho, mas Anne pela primeira vez devolve a bofetada e a acusação. Foi irresponsabilidade da própria mãe ter entregue o menino à filha drogada.Demme dirige bem um roteiro que estabelece sólidas relações entre as personagens, mas, no limite, o que faz a riqueza de O Casamento de Rachel é a liberdade de sua mise-em-scène. Em filmes como Totalmente Selvagem, com Melanie Griffith, e De Caso com a Máfia, com Michelle Pfeiffer, o diretor já usou ritmos latinos (e caribenhos) para expressar o que não pode ser dito com palavras nem ações. Toda a parte final de O Casamento de Rachel - a festa - usa a música de forma brilhante. Se não entrar no clima, você poderá achar excessiva, mas o casamento é interracial e o reggae, o samba, como a droga e as múltiplas referências à Guerra do Iraque extrapolam o quadro da festa, e da família, para transformar O Casamento de Rachel num retrato vívido e forte dos EUA de hoje. Demme reabre a vertente de O Silêncio dos Inocentes e prossegue aqui com sua psicanálise - menos selvagem, talvez, mas não menos abrangente - da América. ServiçoO Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, EUA/ 2008, 114 min.) - Drama. Dir. Jonathan Demme. 12 anos. Cotação: Ótimo

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