''Não relaciono o problema com o Holocausto''

Mesmo assim, ao filmar trabalho de voluntários, diretor percebeu imigrantes identificados com números escritos nas mãos

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

23 de abril de 2009 | 00h00

Welcome potencializou o debate na sociedade francesa sobre os métodos de repressão do Estado à imigração clandestina. Em entrevista ao Estado, o diretor do longa, Philippe Lioret, fala sobre o ativismo de seu cinema e questiona a legislação contra a imigração de seu país. Em resposta ao ministro da Imigração da França, Eric Besson, reafirma que alguns mecanismos de repressão em vigor na Europa se parecem com os usados durante a ocupação nazista. A seguir, a síntese da entrevista.Como você define seu filme? É um longa metragem político sobre imigração, ou a história de um homem que reflete sobre a perda de sua mulher?Espero que os dois. Faço os filmes que tenho vontade de ver. Creio muito na força evocativa de uma história que gire em torno de um homem, assim como creio na capacidade de identificação do público com as histórias que trago para o cinema. Quando evocamos temas que tocam o coração do público, elas sempre causam algum tipo de reação.A imigração é um tema que lhe interessa em especial?Abordo este tema porque creio que Nord-Pas de Calais é a nossa fronteira mexicana, com dramas similares aos que são vivenciados nos Estados Unidos. Comecei a gravar este filme como cineasta. Acabei como cidadão. Ao me aproximar dos imigrantes e dos voluntários que trabalham para garantir um mínimo de dignidade a estes jovens, deparei com uma lei estranha, com a qual é difícil conviver. O filme parte da imprecisão desta lei, que põe em questão cidadãos que demonstram compaixão e acabam confundidos como passeurs (passadores), as pessoas que auxiliam, em troca de dinheiro, os imigrantes ilegais a trocar de país. Para escrever o filme, fui investigar o trabalho das associações de voluntários e a situação dos jovens imigrantes que querem ingressar no Reino Unido. Eu documentei minha ficção. Quando fazemos um filme de forma naturalista, nos perguntamos se a verdade não ultrapassa o verossímil. Alguns críticos franceses qualificaram seu filme como a apologia da imigração irregular. Como você recebe estas críticas?Na realidade estas críticas não vieram de jornalistas que trabalham com cinema ou na área cultural. Estes aderiram ao tema proposto por Welcome. As críticas ferozes vieram quando o filme se tornou um tema político. Então, surgiu a reprovação. Houve uma divisão entre as páginas de Política, muitas das quais refletindo as tendências conservadoras de algumas publicações, e as páginas de Cultura.Nos últimos dois anos, vários diretores, como Costa Gavras, Laurent Cantet, Cédric Klapisch, filmaram o tema da imigração. Trata-se de uma inquietude dos cineastas na França?Nós todos somos inquietos sobre os fenômenos sociológicos. Se nós, diretores, somos numerosos a refletir sobre este tema, é porque ele se transformou em algo grave, sobre o qual precisamos repensar. Mas os franceses não são os únicos. O Visitante, um filme magnífico de Thomas McCarthy, por exemplo, tem um tema vizinho. O problema é internacional. Não chegamos a um acordo sobre os fluxos imigratórios.Uma alusão entre a repressão do Estado francês aos imigrantes e a perseguição de judeus na 2a Guerra gerou críticas até do ministro da Imigração, Eric Besson. Como você reage?Não compreendi sua insistência em atacar uma frase quando está claro que houve erro de interpretação de sua parte. Vou repetir o que disse ao jornal Le Monde: Eu não traço um paralelo entre a caça aos judeus e o Holocausto e a perseguição das quais são vítimas os imigrantes e voluntários que tentam ajudá-los. Mas os mecanismos repressivos se parecem estranhamente, assim como o comportamento de homens e mulheres frente à repressão. Não podemos exagerar. É claro que não estamos em meio ao Regime de Vichy (o governo colaboracionista durante a ocupação da França pela Alemanha nazista). Mas é fato que vi jovens imigrantes identificados com números escritos no dorso de suas mãos com caneta e tinta não-lavável, de forma a permitir sua identificação em caso de uma segunda detenção. É inacreditável.

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