''''Não quero ganhar dinheiro com CD''''

Às vezes de ônibus, às vezes de bicleta, Seu Jorge planeja pôr o mundo para dançar a um preço simbólico de R$ 10

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2021 | 00h00

Se segura, América do Norte, que o cara voltou. Se prepara, Brasil, que ele pôs a banda num ônibus para levar o novo disco, América Brasil, pessoalmente para 11 capitais. Disco que vai custar R$ 10 na saída dos shows. Porque Seu Jorge quer é botar todo mundo para dançar, ser trilha de banquete e de churrasco. ''''Na verdade, eu queria ter dado o CD. Mas me desaconselharam. Disseram que poderia dar confusão nos shows. É um preço simbólico, pra gente comemorar'''', explica ele.América Brasil é o disco do cronista que é cult e pop, plebeu e príncipe, porque consegue ficar sempre bem no trânsito entre os que não têm grana e os que têm, como se isso não fosse mesmo importante. O importante é comemorar. O que ele comemora? As amizades, que acabam levando a trabalhos bacanas, os elogios de David Bowie, a saúde das crianças, o casamento feliz, a possibilidade de rodar o País levando ele mesmo o disco novo debaixo do braço, tudo.Cheio de histórias para contar, Seu Jorge recebeu o Estado em casa, na quarta-feira, na expectativa da estréia em São Paulo, onde se apresenta hoje e amanhã, no Via Funchal.América Brasil é um disco de sambão, e apesar de todas as influências que você tem, fez um disco de samba clássico. Essa volta às raízes do samba é um movimento que a gente percebe entre outros artistas também. Por que você optou por um disco clássico, enxuto?Eu noto que a gente está buscando cada vez mais uma autoria para a nossa música, e consegue isso quando se aproxima da nossa música de raiz. E o samba é uma raiz muito forte. Eu sou da região sudeste, do Rio de Janeiro, onde o samba é muito forte. Mas eu também queria poder usar os instrumentos de samba, o cavaquinho, pandeiro e a cuíca, com um pouco mais liberdade. Normalmente, a cuíca é usada como um instrumento de efeito, quase decorativo. Eu queria que ela tivesse um papel de instrumentos mais solo, como uma guitarra, um piano.Logo que apareceu, você virou cult, foi chamado de ''''o homem mais cool do Planeta''''. Depois, quando trabalhou com Ana Carolina, virou pop, tocou no rádio até cansar. Como fez essa transição, se é que fez?É interessante, porque não é o meu normal. Eu nunca toquei no rádio, não tinha a menor experiência disso. Quem disse que eu sou cool foi o (diretor de cinema) Wes Anderson, um cara lá nos Estados Unidos, e todo mundo repetiu. Não sei bem como lidar com isso. Se você perceber, eu não toco no rádio, moro no País, mas vivo fazendo cinema por aí. Essa é a primeira oportunidade que eu tenho de sair pelo País com um disco para o País. Nem percebo essas coisas que as pessoas falam, se eu sou cult ou não. Mas, é verdade, me chama muito a atenção essa experiência de tocar no rádio com a Ana, porque me deu a chance de tocar para um público totalmente novo, que eu não sei o que espera de mim.Sei que você participou de um filme no começo do ano, The Escapist. Pode falar um pouco sobre ele?Em 2006, eu conheci o diretor Rupert Wyatt em Los Angeles e ele me falou do filme com o Brian Cox e o Joseph Fiennes. É um drama com certo teor de ação e suspense, que se passa num presídio. Interpreto um cara experiente em confeccionar drogas e vender na cadeia.E você está fazendo a turnê de ônibus. Como está sendo?As viagens em turnê são muito estressantes. Muitas vezes, você só vai até o lugar do show, toca e sai fora. Desta vez não, estou levando a minha bicicleta, quero curtir, filmar algumas coisas, ver este país através do meu trabalho. Os músicos toparam, é uma turma de amigos, todos pais. A gente fala sobre os filhos, sai pra comprar presente para levar pra casa.O caos aéreo teve a ver ?Não, não. Confesso que chegou a ser levado em conta. Mas a primeira opção sempre foi o ônibus. A gente fez isso nos Estados Unidos. Claro que a estrutura é diferente aqui, mas acho que se eu consegui viajar pelos Estados Unidos inteiro, tenho de conseguir viajar no Brasil também. Normalmente as pessoas recebem o disco primeiro, ouvem no rádio, depois vão ao show. Desta vez, resolvi levar o show primeiro para a música acontecer no palco.Mas é mais difícil de divulgar um disco assim, não?Não acredito, não. Eu apresento o disco de uma maneira real, direto com o público, sem julgamento prévio. Quem vai julgar é a parte interessada. Divulgar o disco é meio chato. É mais legal ter uma relação no palco.Então, não faz falta tocar no rádio?Não, até porque a meta é tocar no computador. Esse disco é doméstico, é para tocar no churrasco, é para que você ponha no iPod, num sonzinho pra tocar no banheiro enquanto toma ducha com o som alto.E vai custar R$ 10 mesmo?É, eu estou vendendo a R$ 10. Fiz uma prensagem legal, de 35 mil cópias. Eu queria ter dado o CD, mas me desaconselharam. Disseram que poderia dar confusão nos shows. É simbólico, uma maneira de a música chegar com menos burocracia possível às pessoas.Já ouvi você dizendo que não gosta de vender disco. O que pensa sobre a proteção do direito autoral?O direito autoral tem de ser protegido, é tudo o que nos cabe. Mas enquanto a divulgação estiver tão cara, vamos ter os nossos produtos mais caros, não compensando a produção de qualidade. Com isso, a pirataria se aproveita. Não é que eu seja contra a venda de CD, mas acho que não é uma coisa que me levará a ganhar dinheiro.

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