Não mexam em Paris É Uma Festa

Biógrafo de Hemingway contesta edição do livro preparada pelo neto do ficcionista

A.E. Hotchner, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

01 de agosto de 2009 | 00h00

Já está nas livrarias americanas uma nova edição, bastante alterada, de uma obra-prima de Ernest Hemingway (1899-1961), Paris É Uma Festa, publicada pela primeira vez em 1964, pela Scribner, após a morte do escritor. A cargo da mesma editora, foi organizada por Sean Hemingway, neto do escritor, a quem nunca agradou a maneira como sua avó, a editora de moda Pauline Pfeiffer, segunda mulher de Hemingway, havia sido tratada no livro. Ele retirou vários trechos do capítulo final do livro e os substituiu por outros escritos de seu avô que, garante, retratam sua avó de maneira mais simpática. Dez outros capítulos foram relegados a um apêndice, resultando, segundo ele, em "uma representação mais real do livro que meu avô pretendia publicar". Mas é o envolvimento da Scribner com esta versão censurada que deve ser examinado à luz da verdadeira gênese do livro - e da conduta ética da editora.Em 1956, estávamos almoçando no Ritz, em Paris, quando Charles Ritz perguntou a Ernest se sabia que um baú deixado ali por ele, em 1930, estava guardado no sótão do hotel. Ernest tinha esquecido disso, mas lembrou-se que nos anos 1920 Louis Vuitton havia confeccionado um baú especial para ele; e que ele sempre se perguntara onde poderia ter ficado. Charley mandou que o baú fosse levado ao seu escritório e, após o almoço, Ernest abriu-o. Estava lotado de roupas, cardápios, receitas, notas, toda uma parafernália de caça e pesca, equipamentos de esqui, boletos de apostas de corridas de cavalos, muita correspondência e, no fundo, algo que provocou uma reação de grande alegria. "Meus cadernos de rascunho! Estavam aqui! Finalmente!" Eram duas pilhas de cadernos de notas como os usados pelos estudantes em Paris, onde ele viveu nos anos 20. Estavam repletos de notas feitas à mão, nas quais Ernest trabalhava enquanto saboreava um café creme em seu café preferido. Neles, descrevia os lugares, as pessoas e os fatos da sua vida na pobreza. Quando retornou a Cuba, em 1957, Ernest contou com a ajuda de Nita, sua antiga secretária, que datilografou as histórias em páginas com espaço duplo, para tornar mais fácil a edição. Quando visitei os Hemingways em Ketchum, Idaho, no outono de 1958, Ernest trabalhava no que chamou de "meu livro de Paris" e até mesmo me deu alguns capítulos para ler. Em 1959, quando estávamos na Espanha, para acompanhar as apresentações dos grandes matadores Antonio Ordoñez e Dominguín, nos dias em que não havia touradas, Ernest continuava trabalhando no seu manuscrito sobre a cidade. De volta a Cuba, ele interrompeu esse trabalho para escrever The Dangerous Summer (O Verão Perigoso), sobre essas touradas, para a revista Life. Mas em vez das 40 mil palavras estipuladas pelo contrato, ele escreveu 108.746 e me pediu que fosse encontrá-lo em Cuba para ajudar na edição do texto. Quando, tempos depois, parti para Nova York, para entregar o manuscrito ao editor da Life, Ernest deu-me também o manuscrito completo sobre Paris para mostrar ao presidente da editora Scribner, Charles Scribner Jr. Eu relato esta história para mostrar como Ernest se envolveu com Paris É Uma Festa - e que o manuscrito não foi deixado em pedaços, mas estava pronto para publicação. Ernest morreu antes que o livro fosse levado adiante. Quando o visitei na Clínica Mayo, alguns meses antes de a demência levá-lo ao suicídio, ele estava bastante ansioso sobre o livro, preocupado com a sentença final, que ainda não havia escrito. Após a sua morte, sua quarta mulher Mary, como sua testamenteira, decidiu que Scribner devia ir adiante com a publicação. Harry Brague foi o encarregado da edição e eu me reuni com ele diversas vezes quando o livro estava em fase de prova. Como Mary estava muito ocupada com questões do espólio, não se envolveu muito com o livro. Mas consultou-me sobre o título. Scribner queria intitulá-lo Paris Sketches, mas Mary preferia um título mais convincente. Ofereci algumas alternativas, mas nenhuma razoável, até que me lembrei que Ernest certa vez havia se referido a Paris como uma festa móvel. Mary e Scribner adoraram a ideia, e queriam que o livro fosse dedicado a alguém. Sugeri que fosse apenas "a um amigo". Todos esses detalhes são para demonstrar que o livro foi um trabalho sério que Ernest concluiu com sua habitual intensidade e que, certamente, pretendia que fosse publicado. O manuscrito que eu li no avião, vindo de Cuba, era essencialmente aquele que foi publicado. Não houve nenhum capítulo extra criado por Mary, como sugere Sean Hemingway.Como autor, preocupa-me o envolvimento da editora Scribner com esta "edição restaurada". A reformulação da obra abre um precedente e eu me pergunto: o que a editora fará, por exemplo, se um descendente de F. Scott Fitzgerald pedir que seja removido de Paris É Uma Festa o capítulo em que Hemingway fala do tamanho do pênis de Fitzgerald; ou se o neto de Ford Maddox Ford quiser apagar referências ao odor do corpo do seu ancestral? Todos os editores, Scribner entre eles, são guardiães dos livros que os autores confiam a eles. Alguém que herda os direitos autorais de um escritor não tem nenhum direito de remendar a sua obra. Existe sempre a possibilidade de o herdeiro escrever seu próprio livro ao fazer correções. Ernest foi sempre muito cioso das palavras que escreveu, palavras que deram ao mundo literário um novo estilo de escrever. Seguramente, ele tem todo o direito de ter essas palavras protegidas contra incursões frívolas, como é o caso deste livro reformulado, que deve ser chamado "A Moveable Book" (Um livro móvel). Espero que o Authors Guild (Associação de Editores Americanos) esteja prestando atenção a este fato. TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO A.E. Hotchner é autor da biografia Papa Hemingway e de King of the Hill

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.