Não é o Mário, quem é então?

Quando criança havia uma adivinha, que indagava:Tem cara de leão,Não é o leão,tem pata de leão,Não é o leãotem focinho de leão,Não é o leão.O que é então?A resposta: é a mulher do leão.Lembrei-me da brincadeira quando li a polêmica que agitou os meios culturais da cidade: o homem do banner que comemorou o Dia da Consciência Negra é ou não é o Mário de Andrade? Por todo lado, vozes se levantam. Antonio Candido que conviveu com Mário, casou-se com uma prima dele, conversava, discutia, se relacionava com o verdadeiro Mário, garante que não é. Parece o Mário, tem jeito do Mário, tem a cara do Mário, mas não é o Mário. Quem é então?Adoro situações assim, porque, sendo reais, parecem ficção. Assim como existe o túmulo do soldado desconhecido em Paris, junto ao Arco do Triunfo, de agora em diante vai existir o banner do Mário desconhecido. No ano que vem, esse mesmo Mário-não-Mário será reverenciado? Por que não, o objetivo era a consciência negra e essa foi homenageada, uma vez que o homem da foto é negro. Muitos ensaístas tentaram decifrar quem seria o soldado que está enterrado em Paris, como se isso modificasse alguma coisa. E aqui, o que modifica se é ou não é o Mário? Mesmo que seja alguém muito parecido com o Mário, o que interessa é que durante dias e dias esse não-Mário acabou sendo Mário, reverenciado como Mário. Cumpriu sua função, a de ser Mário, mesmo não sendo. Situação para conto de Jorge Luis Borges (aproveitando que esta é a semana dele aqui, em São Paulo). Seria o duplo? Seria o outro? E se Mário, o verdadeiro, tivesse um clone (na época dele não existia a palavra, nem o conceito), que o substituiria eventualmente em chatices? Em alguns países, o presidente tem um sósia, os reis tinham sósias, atores têm seus dublês. Como se sabe, Mário chefiou importantes departamentos da cultura e, portanto, era obrigado pelo protocolo a estar em reuniões chatíssimas, inaugurações aborrecidas, descerramentos de placas cheias de puxa-saco e pedintes de favores, concertos com músicos de quinta do interior ou da periferia, a fazer viagens cansativas por este Brasil. Tudo isso porque quem está na chuva tem de se molhar. Então, Mário, um criador de talento, homem de inteligência elevada, pode ter procurado um sósia, alguém que pudesse passar por ele em lugares onde não era tão familiar. Apertar a mão de prefeitos e vereadores, entregar diplomas, fazer discursos, elogiar políticos que ele não respeitava, participar de banquetes com frango assado e maionese estragada em dias de verão.Acredito que o homem da foto seja o duplo ou o sósia ou o clone. Daí o ter Antonio Candido e outros especialistas, como a Telê Ancona Lopes, ficado com a pulga atrás da orelha, negando a autenticidade do personagem. Porque a esta altura, o homem da foto, o Mário desconhecido, virou personagem. Na minha ficção, colocaria o próprio Mário armando uma pegadinha (palavra que no tempo dele não existia). Fez um pequeno preenchimento de bochecha, mudou pouquíssimo os óculos, alterou a pele com maquiagem quase imperceptível e, na hora do clique, revirou os olhos, como fazíamos quando crianças, para ficar vesgo, o que provocava a imediata intervenção das mães, com medo que ficássemos vesgos para o resto da vida. Pequeníssimo truque para confundir os tempos futuros, deve ter pensado Mário. ''''Os que me conhecem, sabem que não sou vesgo, portanto uma foto minha, vesgo, vai causar reações, discussões.''''O que teria acontecido no passado? Esse Mário-não-Mário da foto quem será? Dizem que teria sido um jogador com o mesmo nome. Ugo Georgetti, cineasta e cronista, que também gosta de ficção como eu, adorou o assunto e deve ter pensado em um filme. Parece que esse jogador não existiu. Não teria sido invenção de Mário? Quem deu à luz a Macunaíma tem cabeça para fazer de tudo. A FPF mantém arquivos, há possibilidade de pesquisas para identificar o tal jogador? Em que time teria jogado? E vejam o triste destino desse não-Mário confundido com o verdadeiro Mário. Em lugar de ficar célebre pelo futebol, pelos dribles, pelos gols, pelas fintas, pela maneira de jogar, entra para a história como o desconhecido que se parece com Mário de Andrade, o homem mais celebrado da cultura brasileira. Ao repensarmos a polêmica, vemos que todos estão perdendo tempo. Mário foi reverenciado, o Dia da Consciência funcionou. Uma tristeza apenas pelo destino desse Mário jogador, que pode ter sido verdadeiro, ter existido, com identidade própria, e acabou, por artes da vida, transformado em falso, o que revela a relatividade de tudo. O que é, acaba não sendo. A verdade de hoje, amanhã será mentira, assim como a mentira de hoje acaba se tornando verdade. Quase citei a velhíssima brincadeira do Mário e o armário, mas seria coisa de mau gosto.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.