Nada prova mais nada

- Não.- Como "não"? Eu ainda não lhe perguntei nada...- Mas, é "não" mesmo.- O senhor não reconhece sua assinatura neste cheque de 20 milhões, enviado para a conta do governador?- Não. A assinatura parece minha, sei que o teste grafológico em Campinas prova que esta assinatura é minha, mas... não é. Quem me garante que o grafólogo não é comprado por meus concorrentes? Minha empresa constrói os viadutos, aeroportos, represas do Estado do meu querido governador, mas se ele me delega as obras, é por amizade... Ele é meu amigo! O senhor é um frio jornalista... não sabe o que é o amor...- Tudo bem, mas o cheque é de sua empresa... Está aqui o nome, número do banco...- Não é da minha empresa...- O senhor não é dono da CAG (Construtores Associados Gurupi)?- Não me lembro...- Mas, o senhor esqueceu o nome de sua empresa?- Esta é apenas uma subsidiária que já fez parte da holding e não faz mais; ela só existe em nome de d. Silvaneide, viúva de meu ex-sócio que já tinha saído do grupo quando, em circunstâncias misteriosas, apareceu assassinado no Motel Crazy Love e, mesmo antes de morrer, que Deus o tenha, ele tinha transformado a CAG em duas sub-ramificações com sede em Miami, a ASS & Hole Inc. e a Cock & Dick participações. Por isso, dizer se este cheque é meu... é tão difícil quanto decifrar um código genético...- Como o senhor passou de uma casinha alugada e um Volks há nove anos, para ser dono desse império de negócios? Sua súbita riqueza coincide com a eleição e a reeleição do seu amigo governador. Como explica o aumento de 37.000 por cento em seu patrimônio?- Trabalho duro e sorte, meu filho...- Um operário teria de trabalhar 3.300 anos, sem comer e sem gastar, para ganhar o que o senhor acumulou em nove anos. Como é possível? - Sei lá... por que tenho de lhe dar satisfações?- Imprensa... o senhor está sendo acusado...- Estou me lixando para a Imprensa, dane-se a opinião pública. Mas, afinal de contas, você quer provar o quê, rapaz?- A verdade!- Mas, o que é a "verdade"? Ah... quer saber? Tudo bem, porra, vou desabafar... Vou lhe dizer, senhor jornalista. Vocês pensam que vivem no mundo da "verdade", essa abstração moral, jurídica?... Pois saiba que "o fabuloso está no comércio", como escreveu Paul Valery. Pensa o quê, porra? Sou culto... Olhe bem para mim. A verdade sou eu! Eu estou no lugar da verdade, entre o poder e o comércio! Este país foi feito assim, na vala entre o público e o privado. Não foi feito com frases feitas, não... Há uma dialética fina entre dinheiro público e a cobiça privada, há uma grandeza insuspeitada na apropriação indébita, florescem ricos cogumelos na lama das maracutaias, qualquer canalzinho de esgoto tem grande poder fertilizador. A bosta não produz flores magníficas? O que vocês chamam de "roubalheira" eu chamo de "progresso", um progresso português, nada da frieza anglo-saxônica; trata-se do excremento como motor da história... São Paulo foi construída com esse combustível, os prédios repousam sobre estes fundamentos... Brasília foi feita de lindas ladroagens... Tudo que é belo e bom nasceu da merda... Essa é a verdade do Brasil, que vocês querem condenar, falando essas bobagens sobre moralidade. O resto é ilusão.- Mas... e o interesse público, o império da lei?- Corta esses resíduos iluministas... Os que vocês chamam de corruptos são os melhores homens do País... Empreendedores, grandes "espadas" imaginosos, poetas dos trambiques, carunchos da lei vivendo nas brechas dos códigos, homens que produzem o novo, contra a pasmaceira do bom-mocismo nacional...- O senhor acha normal um banqueiro dar dinheiro para o mensalão e ser o xodó dos tribunais?- Vocês não entendem que comprar deputado é uma obrigação empresarial? É a mercadoria mais barata... Acusam a mim e outros e não percebem que um golpe isolado só serve para dissimular um roubo muito mais geral, que é justamente o crime da "normalidade". A ingenuidade de vossas denúncias apenas dá uma sensação de "transparência" ao povo... Mas, no fundo, vocês absolvem as grandes quadrilhas; o roubo legal, normal, permitido em lei, ninguém denúncia... Quanto mais vocês criticam a exceção, mais legitimam a regra... Veja: só de INSS nós, empresários, devemos cerca de 100 bilhões... A indústria das liminares nos protege... o FGTS, quem recolhe?... E o Imposto de Renda? Metade dos bancos não paga... E vocês, românticos, bobos, atacando uma malandragenzinha isolada...- Mas, doutor... (o repórter já hesitava, varado de dúvidas, trêmulo) há provas concretas contra o senhor... O vídeo em que o senhor compra aquele senador... com diálogos, gargalhadas, entregando uma mala preta... Tudo filmado... Foi ao ar na TV! Como o senhor explica aquela cena gravada?...- Já expliquei. Ensaio. Eu estava ensaiando uma peça de teatro para meus funcionários na festa de fim de ano... Aquele senador, que conversa comigo, quer ser ator... Acho ele até meio veado... Mas é teatro... Quando ele diz: "Aqui está a grana, na mala preta!" e eu respondo: "Ôba, oh admirável mundo novo, o dinheiro é a mola da vida!" - eu estou citando Shakespeare... É arte, entende? (falando baixo para evitar o gravador: "Tudo pode ser negado... ah ah... é só dizer ?não?.")- Então, o senhor não fez nada?- Não.- E essas provas cabais, definitivas?...- Olha, meu filho, provas não provam mais nada. Sabe por quê? Eis a minha mais profunda verdade: Eu não sou eu! Eu é um outro...- E como é seu nome, então?- Não me lembro.- E como é então o nome do "outro"? - Não sei. Meu filho, desista; nós não existimos. "A vida é a ilusão dos sentidos", como disse...- Quem?- Um filósofo do Maranhão... um com bigode.- Qual é o nome dele?- Não me lembro... ele já morreu há muito tempo, mas não sabe ainda...

, O Estadao de S.Paulo

02 de junho de 2009 | 00h00

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