Nada moderno, porém eterno defensor de uma sintaxe clara

Ele seria o contraponto de Raul Bopp e Mário de Andrade, defende Augusto Massi

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

Muitos estudiosos da obra de Euclides da Cunha, entre eles o professor e crítico Francisco Foot Hardman, defendem ter sido o escritor de Cantagalo uma vítima de sua obra-prima, Os Sertões. Ela teria ofuscado todos os seus outros livros. Sua poesia, por exemplo, é pouco lida e estudada, mas quem a leu - como Hardman, que preparou, com Leopoldo Bernucci, da Universidade da Califórnia, o volume da obra poética completa de Euclides, a ser lançada pela Unesp - afirma que são poemas sintonizados com a modernidade literária. Existe nela, segundo o professor da Unicamp, ecos do romantismo de Gonçalves Dias, Leopardi e Byron, mas também traços pré-modernistas num poema como Ondas, escrito na época em que Euclides foi nomeado chefe de seção da Comissão de Saneamento de Santos, antes de partir, em 1905, para a viagem pelo Rio Purus, na Amazônia, chefiando missão oficial do Ministério das Relações Exteriores para resolver o litígio de fronteira entre o Brasil e o Peru.Por outro lado, há quem defenda ter sido Euclides o contraponto do modernismo, como o professor de Literatura da USP e diretor presidente da editora Cosac Naify, Augusto Massi. "Raul Bopp, que também fez uma viagem pela Amazônia, viu uma brutalidade naquela região e teve de encontrar uma linguagem de vanguarda para descrevê-la, enquanto Euclides fala dela com todas as dificuldades de um homem ligado ao positivismo." Para Massi, que organizou a obra poética do autor de Cobra Norato, a Amazônia é um lugar a ser ocupado pelo imaginário. Os modernistas logo concluíram que a presença afro-brasileira na região exigia a busca do mito para explicá-la, enquanto Euclides se mostrou resistente à reapropriação desse mesmo mito.Em poucas palavras: Euclides da Cunha não teria sido um "turista aprendiz" nem um erudito interessado em folclore e mitos locais, como Mário de Andrade. "Ele está longe disso", diz Massi. Segundo ele, o autor de Os Sertões fez um recorte do que viu na Amazônia "para traduzir a região numa linguagem clara", enquanto Andrade e Bopp "beberam nos mitos para potencializar uma fantasia". O grande mérito de Euclides, afirma o professor e editor, "foi ter feito alta literatura com material que ainda não era considerado literatura" - isto é, jornalístico.Daniel Piza, editor executivo e colunista do Estado, que refez a viagem de Euclides pelo Purus, lembra a respeito que ele foi o primeiro jornalista literário brasileiro (leia texto na página seguinte). "Quando ele fala da Amazônia, usa tanto expressões bíblicas como o jargão do cientista, deixando-se contaminar pelos enigmas da região e incorporando as contradições da natureza", analisa.Para Augusto Massi, no entanto, a leitura que Euclides faz da Amazônia é a de um parnasiano. "Não tem a dimensão de Guimarães Rosa, que se apropria da língua popular; o modernismo passou longe dele", sentencia. Euclides estaria, de acordo com o professor e editor, "entre Machado de Assis e o modernismo", numa espécie de transição entre dois mundos, "como ocorreu com outros poetas e romancistas, entre eles Augusto dos Anjos".Massi destaca, porém, o papel de Euclides da Cunha como desbravador de um território que despertou a atenção de escritores estrangeiros como o alemão Alfred Döblin (autor de Berlin Alexanderplatz), que escreveu, em 1937, a trilogia Amazonas - Das Land Ohne Tod (A Terra Sem Morte), Der Blaue Tiger (O Tigre Azul) e Das Neue Urwald (A Nova Selva). "E não foram apenas os escritores que quiseram se apropriar dos mitos amazônicos, mas cineastas como Werner Herzog , o que comprova a universalidade de Euclides", comenta.Os Sertões também teve um papel decisivo nessa história - particularmente na escolha do tema de Veredicto em Canudos (escrito em 1960 e traduzido em 2002 pela Companhia das Letras). Nele, o húngaro Sándor Márai revê a guerra de Canudos sob a ótica europeia, questionando onde estava a civilização e barbárie nesse confronto entre as forças republicanas, pretensamente progressistas, e os fanáticos seguidores de Conselheiro, vistos pelo Exército como reacionários defensores da monarquia. O mesmo conflito levou o peruano Mario Vargas Llosa a escrever e dedicar A Guerra do Fim do Mundo (1981) ao escritor brasileiro. "Os Sertões tem a ambição de ser um ensaio para compreender o País e, ao mesmo tempo, um caso raro de esforço jornalístico", explica Massi, observando que, ao mudar de opinião sobre os rebeldes de Conselheiro, Euclides se aproxima da verdade e a relativiza diante do leitor. "Se ele não era tão moderno, ao menos fez o aspecto trágico do País voltar à tona", admite o editor, sublinhando que Os Sertões ainda é lido como um épico tradicional.Outro mérito de Euclides: ele leva o leitor a resgatar seu contato com a natureza. "A gente tem pouco conhecimento dela e escritores como ele e Guimarães Rosa restabelecem nossa ligação com o mundo natural", diz Massi, argumentando que a literatura brasileira contemporânea, essencialmente urbana, pode ser empobrecedora. "Rosa tinha um trabalho de campo, preocupava-se em ler autores regionais, ouvir pessoas e observar o comportamento dos bichos, o que é uma das funções da literatura." Em síntese: levar os leitores a refazer seu roteiro foi a viagem de Euclides. Sem ele, seria mais difícil entender a natureza do sertanejo.

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