Na verdade, o Zeppelin era assim...

Chega às lojas Mothership, nova coletânea de canções clássicas do Led Zeppelin, com um CD com 24 canções e um DVD

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2007 | 00h00

Há anos todos sabemos que Robert Plant não tem mais aquela voz. Mas sempre esperamos que um dia ele volte a cantar como cantava, inutilmente. Esse novo retorno do Led Zeppelin em Londres, semana passada - nada impressionante, porque Plant e Page cansaram de fazer shows juntos, vieram até ao antigo Hollywood Rock, e são a alma da coisa - acendeu de novo a esperança. Mas os velhos vocalistas das bandas lendárias agora cantam três tons abaixo do que cantavam e fisicamente se parecem com os magos anciões dos filmes da série O Senhor dos Anéis.Então, para que não esqueçamos como foram bons, saem coisas como esse Mothership (Warner Music, R$ 160) - dois CDs e um DVD que trazem 24 músicas e imagens de shows que evocam os melhores anos do Zeppelin. É algo para se comemorar? Depende. Se o ouvinte acabou de chegar ao mundo do Zep, não é um negócio ruim.Mas, se voltar cinco anos no tempo, vai lembrar que estava sendo lançada ali a compilação Early Days and Latter Days (Volumes 1 e 2), que já prometia a melhor reunião de canções do Zep em um CD duplo. Um ano depois daquilo, saiu um DVD com performances ao vivo do grupo. E, este ano, saiu também mais um material, The Song Remains the Same, com álbum e filme tratando da trajetória do Zep.Mothership, dentro desse contexto, não traz absolutamente nenhuma novidade. Vinte das 24 faixas já estavam contidas em Early Days. Ou seja: é um disco que serve apenas para alimentar a mitomania. Poderia ser algo novo se prometesse uma qualidade sonora inédita, mas os álbuns pregressos já tinham também excelência na masterização (a mixagem aqui foi de Kevin Shirley).Então, considera-se que Mothership (embora a seleção que conste do álbum tenha sido feita pessoalmente por Plant, Page e John Paul Jones, os remanescentes do grupo) seja um disco para iniciantes na ordem zeppeliniana. De fato, se o leitor imaginar um neófito ouvindo pela primeira vez os agudos de Plant em Dazed and Confused e Black Dog, ou a bateria de Bonham em sua melhor forma, ou as guitarras de Page em Immigrant Song, ou mesmo o teclado à Jerry Lee Lewis em Rock and Roll, bom, esse sujeito vai achar que descobriu a pólvora.Entre 1969 e 1975, o Led Zeppelin estabeleceu as bases de um rock visceral, fundado no blues, que fariam a cama para gêneros como heavy metal e o futuro rock alternativo. Não por acaso, é uma das principais referências de Jack White, da banda White Stripes, uma das mais importantes da atualidade. Certa vez, falando ao Estado sobre esse ''''filhote'''', Plant ironizou. ''''É, parece bastante com o Led Zeppelin, especialmente o guitarrista.'''' Queria insinuar, obviamente, que uma garganta como a sua nunca mais.Na compilação Mothership, algumas das grandes canções dessa fase são ''''engrupidas'''' em prol de outras medianas de fases posteriores da banda, como In the Evening. O fã mais exaltado vai gritar: ''''Onde está The Ocean?''''. Uma ausência imperdoável, é claro - The Ocean era a última canção de um álbum clássico, Houses of the Holy, de 1973.De qualquer forma, não deixa de ser bacana rever em vídeo, entre outras, a performance de Plant em Black Dog, de camisa aberta no peito, andrógino, vestindo um coletinho que ele parece ter furtado de uma criança num jardim de infância, cinturão quadrado e calça boca-de-sino.Muita gente critica o culto necrófilo à banda, o show da semana passada (decadente e um tanto oportunista), e talvez todo mundo tenha razão. Mas quando a gente revê com essa nitidez o que foi o Zeppelin, pelo menos compreende que os fãs fiquem tão pilhados.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.