Na tela, as artimanhas da verdade

Em novo filme, Eduardo Coutinho consegue provar como e por que até o falso pode ser verdadeiro

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

09 de novembro de 2007 | 00h00

Desde que Jogo de Cena foi exibido fora de concurso no Festival de Gramado, em agosto - como parte da homenagem a Eduardo Coutinho, que recebeu um novo troféu criado pelo evento, o Kikito de Cristal -, muita gente se pergunta por que o grande diretor escolheu somente mulheres para seu novo trabalho. A resposta chega a ser singela - ''''Escolho o outro de mim. Se sou supostamente homem, nada melhor do que filmar supostamente mulheres, partindo de nossas diferenças anatômicas.''''Ele conseguiu, mais uma vez. Coutinho se iniciou na ficção, nos anos 60, e só nos 80 descobriu sua veia de documentarista, quando retomou o projeto de Cabra Marcado para Morrer, interrompido quase 20 anos, para fazer um filme que se tornou clássico. Mais tarde, após um período crítico que o silenciou durante vários anos, Coutinho voltou com outro documentário notável, Santo Forte, perfeccionando, nos anos seguintes, um método que culminou com Edifício Master, tão bom que foi considerado pela crítica - a Fipresci, Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica - um dos cinco melhores filmes da Retomada, período do cinema brasileiro que começa com Carlota Joaquina, de Carla Camurati, em 1995. Como tal, Edifício Master integra o livro Cinco mais Cinco, lançado no Festival do Rio, a cuja editora está ligado, e ainda à espera de lançamento em São Paulo.Coutinho chegou a um ponto em que parecia impossível obter mais verdade em seu cinema. Ele possui, como poucos diretores no mundo, essa habilidade rara de colocar as pessoas de tal forma à vontade diante de sua câmera que todo mundo faz revelações muito íntimas com a maior naturalidade, muitas vezes como quem se liberta de um peso. Tendo chegado tão longe na verdade, Coutinho incorpora agora seu reverso, a mentira. Para Jogo de Cena, que estréia hoje, ele colocou um anúncio no jornal, convocando mulheres para um teste de filmagem. Elas foram chegando e contando suas histórias. Coutinho selecionou algumas dessas histórias e pediu a atrizes que recriassem os depoimentos. Algumas delas são estrelas do teatro, do cinema e da TV. O público reconhece Marília Pêra, Fernanda Torres e Andréa Beltrão. Mas existem aquelas atrizes que não são tão conhecidas e criam uma nebulosa terra de ninguém.Em vários casos, torna-se difícil, senão impossível, determinar quem é a atriz e quem é a personagem. Em um caso, não existe a personagem, só a atriz. Coutinho não esclarece (mas fornece pistas). Tal é o jogo de cena que ele propõe em seu novo filme, que não é um documentário tradicional e - como Santiago, de João Moreira Salles - trafega nas bordas da realidade e da ficção (lá, com um maravilhoso personagem masculino). O próprio Coutinho define Jogo de Cena como um filme sobre mulheres e uma homenagem à arte da representação de atrizes. Mas, se ele mistura as duas coisas, é convencido de que, no cinema, todos representam. A diferença é que os não profissionais são, como diz o diretor, ''''atores deles mesmos''''. A genialidade, ou a provocação de Jogo de Cena, consiste em demonstrar que a verdade, como dogma do documentário, fica superada, quando - ou se - ''''a pessoa performa bem sua vida e sua memória.''''A única verdade em todo o processo, assegura Coutinho, é que existe uma filmagem. Todos são midiatizados pela câmera. Ele rompe com uma de suas regras, até aqui, e deu às atrizes a chance do take dois. Um momento magnífico é quando Fernanda Torres revela que não está podendo fazer sua personagem e embarca numa viagem em que fala de si. Uma das mulheres volta no final, ''''mas foi ela que pediu'''', diz o diretor. Foi bom, porque justamente esta mulher canta. E o filme nunca é de Coutinho se não tem alguém cantando, em cena.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.