Ná Ozzetti, com a graça de Carmen

Em Balangandãs, cantora reencontra suas influências interpretando clássicos

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

21 de agosto de 2008 | 00h00

Sem bananas na cabeça, sem subir nos tamancos, Ná Ozzetti encarna o mito Carmen Miranda (1909-1955), a partir de hoje, no show Balangandãs, no Teatro Fecap. A evocação é apenas musical. Cantoras de estilos aparentemente opostos - Ná é contida, Carmen era a encarnação do colorido carnavalesco tropicalista -, elas se encontram em detalhes de vocalização e na brejeirice de um repertório de clássicos (leia no quadro).O primeiro contato mais profundo de Ná com o legado de Carmen começou na virada dos anos 1970 para os 80, num trabalho de pesquisa do Grupo Rumo, em São Paulo. "De cara o que me impressionou muito foi a riqueza do canto dela, a forma como ela valorizava as canções", lembra Ná. "Nenhuma passava por ela sem que colocasse alguma graça, mas fazia isso de uma forma muito natural, aproveitando o que já era oferecido pela própria canção." Carmen deu voz aos compositores mais importantes de seu tempo - Dorival Caymmi, Ary Barroso, Assis Valente, Braguinha, Vicente Paiva, Joubert de Carvalho, Zequinha de Abreu, só para citar alguns que Ná selecionou. "Esse show, através desse universo de Carmen Miranda, é também um passeio sobre uma forma de composição de uma determinada época no Brasil e de determinados compositores", destaca a cantora. Ná também chama a atenção para a modernidade do canto de Carmen até hoje, que, além da qualidade do repertório, se reflete na arte de Elis Regina, Gal Costa, Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Nara Leão e da própria Ná. "Além da grande artista multimídia que era (vou usar uma palavra que está muito em voga hoje, mas que cabe direitinho aqui), ela tinha ?atitude?, como Elis, Nara e Caetano. Uma pessoa completamente antenada no que havia de melhor sendo produzido no seu tempo. Mesmo quem não estava tão em evidência, ela percebia."Outra diferença entre Carmen e outros intérpretes era a relação lúdica que tinha com a música. "E ela levou isso para o vestuário e a forma de se movimentar em cena", observa Ná. Depois que assumiu a baiana como personagem, ficou estigmatizada pela figura exótica, muitas vezes ofuscando o talento de grande cantora no imaginário do público. Foi assim que a portuguesa radicada no Rio caiu no gosto dos americanos e tornou-se a artista da música mais conhecida do Brasil no mundo. Depois de passar muitas crises, sua volta ao País provocou estranhamentos. Para representar essa fase, Ná escolheu as canções Chattanooga Choo-Choo (M.Gordon/H.Warren), com versão de Aloysio de Oliveira, e Disseram Que Eu Voltei Americanizada (Peixoto/Paiva).Boneca de Piche, Adeus Batucada e Na Batucada da Vida são três que Ná cantou várias vezes no palco, tendo gravado as duas últimas no CD Show, de 2001. A cantora considera este um trabalho de conjunto, com Dante Ozzetti (violão), Mário Manga (guitarra, violão e violoncelo), Zé Alexandre Carvalho (contrabaixo acústico) e Sérgio Reze (bateria e percussão), muito envolvidos desde o início do projeto. Tanto na interpretação como nos arranjos, eles procuraram manter o espírito do original, com toques de contemporaneidade. "Carmen criou toda a magia do seu canto interagindo com os arranjos. Quis também me basear nela para criar minha interpretação. Estou cantando mais brejeiro, porque o repertório pede isso e explorando um registro um pouco mais agudo da voz, porque favorece a brejeirice."ServiçoNá Ozzetti. Teatro Fecap (400 lug.). Av. Liberdade, 532, 3272-2277. 5.ª, 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 30. Até 31/8Quem Ela CantaEntre os sambas brejeiros que Carmen Miranda tornou clássicos estão O Tic-Tac do Meu Coração (Valfrido Silva/Alcyr Pires Vermelho) e O Samba e o Tango (Amado Regis). Além desses, no show Balangandãs estão representados alguns dos compositores mais importantes da era do rádio, entre os anos 30 e 50, que brilharam na ginga de Carmen.DORIVAL CAYMMI (O Que É Que a Baiana Tem? e A Preta do Acarajé)ARY BARROSO (Na Batucada da Vida, parceria com Luiz Peixoto, e Boneca de Pixe, com Luiz Iglesias)ASSIS VALENTE (Camisa Listada, E o Mundo Não se Acabou e Recenseamento)BRAGUINHA (Touradas em Madri e Fon-Fon)SYNVAL SILVA (Adeus Batucada e Ao Voltar do Samba)VICENTE PAIVA (Disseram Que Eu Voltei Americanizada, com Luiz Peixoto, e Diz Que Tem, com Hanibal Cruz)JOUBERT DE CARVALHO (Taí)ZEQUINHA DE ABREU (Tico-Tico no Fubá)

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