Na intimidade de Antonio Bandeira

MAC expõe uma panorâmica da obra do pintor cearense que revela sintonias e aspectos mais íntimos do processo criativo

Maria Hirszman, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Quem esperar encontrar apenas típicas telas de Antonio Bandeira (1922-1967), com suas explosões de cor e intensa gestualidade, na mostra dedicada ao artista que o MAC de São Paulo abriu esta semana, ficará um tanto decepcionado. Não se trata de uma exposição montada para reiterar aquilo que já é conhecido e consagrado, mas sim uma tentativa de trazer à tona aspectos menos conhecidos de sua obra, revelar sintonias e aspectos mais íntimos de seu processo criativo.Segundo Roberto Galvão, um dos curadores da mostra e diretor do Centro Dragão do Mar (Fortaleza) ao qual pertencem as obras expostas, a mostra pode ser comparada a um ensaio, com um caráter didático que casa bem com o perfil do museu universitário paulista. Esse aspecto reflexivo explica, por exemplo, a presença majoritária de obras até agora inéditas. Ao expor dezenas de pequenos desenhos, esboços e pinturas lado a lado leva o espectador a compreender melhor o processo investigativo do artista.Uma série de quase 30 esboços desembocam na tela Bicho, de 1947, sublinhando na prática a importância da repetição, da disciplina, do retorno quase obsessivo à mesma imagem na configuração de sua poética. "Meu quadro é sempre uma seqüência do quadro que já foi elaborado (...), indo juntar-se ao quadro que nascer depois. Talvez gostasse de fazer quadros em circuitos, e que eles nunca terminassem, e acredito que nunca terminarão mesmo", teria dito Bandeira em entrevista publicada em 1964 e citada por Galvão e José Guedes no texto de abertura da mostra. Há outros interessantes exercícios, agrupados por sua familiaridade, como um conjunto de esboços de formas femininas de membros agigantados, que remetem às célebres figuras antropofágicas de Tarsila do Amaral, ou a série de desenhos e aquarelas que encerram a mostra com uma espécie de retorno à figura, através de reiteradas imagens de paisagens urbanas.Aliás, um dos aspectos centrais da exposição - e responsável inclusive pelo título Desconfiguração - é a defesa clara de que Bandeira não trabalha com conceitos abstratos, mas desconstrói, abstrai uma imagem real, tangível. Como escrevem os curadores, ele trabalha "indiscutivelmente com fragmentos da memória". Ou, como sintetizou Bandeira, "em Paris, costumam chamar-me de abstrato, porém, quando vou começar um quadro, nunca penso nisso, nesse suposto abstracionismo meu. Quero apenas pintar, partindo da idéia (ou da imagem) de seres, cidades, etc., isto é, coisas que eu já vi, espontaneamente". ServiçoAntonio Bandeira. MAC-USP. Rua da Reitoria, 160, Cidade Universitária, tel. 3091-3039. 10 h/18 h (sáb. e dom., até 16 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 25/1

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