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Na exposição ‘Errantes’, fotógrafo Titouan Lamazou mostra como vivem povos nômades e refugiados

Em cartaz até dia 25 na Galeria Rabieh, Lamazou concedeu uma entrevista ao Caderno 2, em que falou tanto da mostra, com curadoria de Eder Chiodetto, como de seu mais recente livro

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2016 | 03h00

Aos 18 anos, o fotógrafo, pintor e escritor francês Titouan Lamazou, nascido há 61 anos em Casablanca, Marrocos, decidiu colocar o pé na estrada, ou melhor, na água, após uma breve passagem pela Escola de Belas Artes de Paris. Foi primeiro para as ilhas das Antilhas e Bahamas. Aventureiro por natureza, conheceu o navegador Éric Tabarly e ambos correram mundo a bordo do Pen Duick VI, um barco de alumínio de 22 metros. Foi graças a essas viagens que Lamazou voltou à primeira paixão, a pintura, em 1982, embora sem abandonar a vida no mar – ele ganhou um título de campeão mundial de regata oceânica em 1991, o que lhe garantiu a apresentação de um projeto original de residência artística itinerante num barco ateliê, em 1998.

Lamazou conhece o mundo todo. Como todo bom marinheiro, é fascinado pela figura feminina. Entre 2001 e 2007, desenvolveu um projeto chamado Zoé-Zoé, Mulheres do Mundo, que lhe garantiu reconhecimento internacional e o título de “Artista da Unesco para a Paz”. Bom aquarelista, Lamazou retratava mulheres nômades ou refugiadas que sofriam maus-tratos por sua condição da vida, o que o levou a criar a associação Lysistrata, sem fins lucrativos, para combater a discriminação e lutar pelos direitos femininos.

Pictórico. De passagem por São Paulo para inaugurar sua exposição Errantes, em cartaz até dia 25 na Galeria Rabieh, Lamazou concedeu uma entrevista ao Caderno 2, em que falou tanto da mostra, com curadoria de Eder Chiodetto, como de seu mais recente livro, Retour à Tombouctou (Ed. Gallimard, 400 págs., 40 euros), além de pintura, claro. As 12 imagens reunidas na exposição são deliberadamente pictóricas e constituem, segundo ele, um tributo ao cromatismo do romântico Delacroix e do neoclássico Ingres, embora não apelem para o exótico ou o voluptuoso. As fotos retratam a situação real em que vivem nômades e refugiados do Mali, da Mauritânia, da Palestina, da Mongólia e até da Sibéria. 

No entanto, Lamazou chegou a ter uma visão idealizada – e um tanto distorcida – da vida que levavam as mulheres nômades – um pouco à maneira de Ingres e Delacroix, ele assume. Seu livro Retour à Tombouctou, nesses aspecto, é um acerto de contas com ele mesmo que, em 1998, partiu para Timbuctu, em pleno Mali, disposto a fazer uma ode à vida dos tuaregues. Sua miopia não permitiu que ele percebesse as tensões étnicas e políticas que sempre acompanharam os habitantes de Timbuctu desde a época da colonização, embora a cidade fosse um centro de tolerância religiosa até o século 16.

“Um pouco sem jeito, retornei 15 anos depois para fotografar as mesmas pessoas que havia registrado em 1998, mas, para minha surpresa, a maioria havia fugido da perseguição jihadista, buscando refúgio na Mauritânia ou Nigéria.” Seguindo os passos desses refugiados pelas rotas do deserto, Lamazou registrou a vida provisória de homens e mulheres obrigados a reinventar sua história em território desconhecido.

Mestre. Lamazou tem um método original de trabalho. Antes de fotografar, faz aquarelas de seus retratados, estabelecendo com eles uma relação baseada na confiança. “Desenho os rostos e, se eles gostam, vamos em frente”, conta o fotógrafo. “Quero que eles fiquem contentes com as fotos”, diz, revelando preferência por culturas ancestrais como as do Mali, onde conheceu o mítico fotógrafo Seydou Keita (1921-2001), conhecido por suas fotos de malineses que estão para a África assim como as imagens de August Sander estão para a Alemanha. “Keita foi muito importante na formação do meu olhar”, reconhece. 

Identidade. Assim como as fotos de Keita formam um painel histórico da sociedade do Mali, Lamazou espera que suas imagens ajudem o mundo a conhecer a situação de refugiados e nômades que lutam para preservar sua identidade cultural. “Tenho três filhos, e essa situação de vencidos, de perdedores me toca profundamente”, diz ele, diante de uma foto dramática, que mostra membros de uma família vivendo numa gruta da Palestina como seres pré-históricos. À maneira de David Hockney, ele monta as fotos com fragmentos de uma mesma imagem. Numa delas, que registra uma tenda na Sibéria, fazia tanto frio que ele fotografou primeiro o seu interior e depois o ambiente externo, juntando posteriormente as duas imagens. O resultado é desestabilizador.

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