Na estrada com o Alemão

O ônibus saiu da rodoviária em Ubatuba às 15h03 e pude, enfim, encostar na poltrona de número 11, ao lado da janela, e me dedicar ao livro de Anatol Rosenfeld. Passara dias maravilhosos na praia, cercado de amigos e familiares. Tomei sol, comi, pulei do píer, fiz expedições pela Mata Atlântica. Joguei até futebol de praia. Foram dias tão bons, aliás, que não consegui ler quase nada. Meus livros mofaram na mochila.Fazia meses que queria pegar de jeito essa obra, uma coletânea de textos antigos que traz o título aspeado de ?On the Road? (Editora Perspectiva). Ganhei-o em outubro de Claudio Marcondes, por ocasião do meu aniversário. Desconhecia o livro, apesar de ter sido publicado em 2006. Não corre o risco de se tornar best seller, diga-se de passagem. Só um frequentador assíduo de livrarias, como o Claudio, seria capaz de encontrá-lo, desconfio. É obra para conhecedor.Sempre quis saber mais sobre Rosenfeld, um alemão de verdade que, judeu, buscou refúgio no Brasil no ano de 1937, aprendeu a escrever em português e se integrou à boemia intelectual de São Paulo. Dele eu conhecia o texto clássico sobre o jogador Leônidas da Silva, de 1956. Mas era só.Não sabia que ele havia trabalhado em fazendas no interior de São Paulo e, também, no Mato Grosso, Sul e Norte, como caixeiro-viajante, segundo explica em nota autobiográfica. Depois, retomou a vida de intelectual que iniciara na Alemanha, escrevendo livros e artigos e colaborando, inclusive, com este jornal.Como não havia lugar no carro para voltarmos da praia todos juntos, eu me dispus a pegar condução. Gosto de andar de ônibus. Acho superiores todos os tipos de transportes - trens, aviões de porte maior, navios - que permitem a leitura. O meu problema é apenas o motorista. Mas este se mostraria, ainda no caminho de Caraguatatuba, "suave", para usar uma expressão cara à minha filha Maria, de 18 anos. Daria para ler com tranquilidade na poltrona de número 11 (no fundão é pior). Esperava fazer uma bela viagem.E não só por causa do livro. Sou fã da culinária caipira, sobretudo a da beira de estrada. Adoro linguiças apimentadas e queijos Minas, coxinhas, pamonhas, coalhadas, paçocas e pés-de-moleque. Planejava deliciar-me com algumas dessas iguarias durante a parada do ônibus em Paraibuna, no meio do caminho. Até lá, saborearia os textos do Alemão.O melhor são as crônicas da primeira parte do livro. Rosenfeld narra suas aventuras durante a década de 1940, quando atravessou o Mato Grosso, como caixeiro-viajante. Por coincidência, passou por regiões que eu conheci na minha primeira visita ao Brasil, como aluno (americano) de intercâmbio, em 1976 - a de Campo Grande e Ponta Porã, na divisa do Paraguai, entre outras. Pelo caminho, Rosenfeld encontra personagens divertidos. Conta casos. Atola na lama e é obrigado a dormir no mato.Teve, também, algumas reações parecidas com as minhas em Mato Grosso. Convence-se, por exemplo, de que é o predileto dos pernilongos: "Em geral, sou eu a vítima, pois sou uma novidade nesta zona, com pele bem branquinha, carne macia e sangue pouco enfraquecido... Francamente, sou uma atração. Sinto-me como uma mulher duvidosa que aparece pela primeira vez numa cidade pequena..."Quando o ônibus parou em Paraibuna, pedi um sanduíche gigante e delicioso de linguiça e continuei lendo, ali no balcão da padaria. Chamei a atenção dos outros ao rir alto de uma passagem de Rosenfeld. Ao explicar a singularidade da civilização anglo-saxônica, ele faz o melhor resumo que já li de A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, obra clássica do sociólogo Max Weber. Escreve Rosenfeld dos ingleses: "Como o puritano introvertido não pode expandir-se em farras, foi o capital que se expandiu..." E assim caminha a cultura brasileira. Pela estrada.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.