''Na era da web, dane-se o artista''

Marcelo Camelo, que faz shows em São Paulo, defende os downloads gratuitos

Adriana Del Ré, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2008 | 00h00

O músico Marcelo Camelo tem fama de ser difícil. De falar pouco, de não ser dado a conceituar sua obra. Se esse Camelo realmente existe, ele deve ter ido dar uma voltinha quando a reportagem do Estado foi entrevistá-lo em um estúdio de São Paulo. Quem ficou foi um Camelo alegre, falastrão, que curte desbravar a internet, música pop e de ver no YouTube seus fãs dando a própria versão a músicas dele. De fato, o cantor e compositor carioca parece ficar pouco à vontade na hora que lhe pedem para explicar um novo trabalho, como aconteceu com seu primeiro CD-solo-pós-recesso-da-banda Los Hermanos, Sou (que, de cabeça para baixo, pode ser lido como Nós). "As composições já falam sobre elas, do jeito que é: meio torto, confuso. Porque meus pensamentos dão umas voltas que não são lineares. Quando penso na feitura das músicas, mal me lembro de tê-las feito, eu estava totalmente ausente."É com um repertório renovado, produzido sob o efeito de um estado de "relaxamento", que Marcelo Camelo se apresenta hoje e amanhã no Citibank Hall. Em entrevista, ele fala sobre o CD Sou, internet e Los Hermanos.Em uma entrevista, você disse que chegou a um momento em que o que você fazia parecia não se encaixar no Los Hermanos. De que maneira esse sentimento influenciou o recesso da banda?Muito pouco. O cronograma indicava que a gente iria fazer um novo disco. Paramos em dezembro de 2006 e a idéia inicial era tirarmos um mês de férias, mas falei com antecedência que esse período seria pouco para ter repertório. Em março de 2007, quando a gente se encontrou de novo, eu não tinha nenhuma música, nenhuma vontade de sair em turnê, de gravar um disco, de cantar. Estava exausto da turnê passada. Nesse encontro, a gente concluiu que não havia repertório e fizemos esse recesso. Tenho a impressão de que eles (os outros integrantes da banda) tentaram tocar, mas não rolou também pelo cansaço. Quanto tempo vocês ficaram na estrada com a última turnê?Uns dois anos. Era para ter terminado no meio de 2006, mas estendemos até o fim do ano. Em novembro (de 2007), eu já tinha umas nove, dez músicas prontas ou bem próximas de prontas e algumas antigas, como Liberdade e Santa Chuva. A gente tinha tentado gravar Liberdade no CD Quatro, mas não tinha ficado boa. Eu tinha algumas idéias e não queria ficar em casa. Deu vontade de gravar um disco. O que você pensou para seu primeiro disco-solo, Sou?A diretriz foi a da tranqüilidade, conforme a vontade. Alguns críticos avaliam seu novo trabalho como introspectivo. Você concorda? Não existe um significado para ser resumido. Meu desejo é que cada um perceba uma coisa sobre o disco e essa análise de que é um disco introspectivo é uma delas. A jovem cantora Mallu Magalhães é uma das convidadas de seu CD. Como você conheceu o trabalho dela?Quando vi o primeiro vídeo dela no YouTube, me tornei fã a ponto de querer conhecer todas as músicas. Fiz a música (Janta) e mandei para ela por e-mail. Você gosta de ficar na internet?Sou um consumidor de informação, não faço um trabalho de pesquisador. Algumas faixas de Sou foram disponibilizadas na rede para downloads gratuitos. Na sua opinião, como hoje em dia a internet funciona como ferramenta de divulgação?A internet é para todo mundo, para o consumo do trabalho. A gente deve usá-la na sua máxima potencialidade. Hoje, se você quer informação, não vai até o site da empresa ou da fonte: vai ao fórum de discussão. Essa forma de inteligência coletiva é muito superior àquela linear, unitária. Meu papel como produtor de informação é incendiar. Quero mais que todo mundo troque todas minhas músicas, que o peer-to-peer bombe. Mas muitos ainda questionam essas trocas gratuitas, alegando que o artista é prejudicado...Dane-se o artista. O progresso é mais importante que isso tudo. Está se fazendo um bem para a coletividade. Vão produzir música melhor, o público vai desenvolver senso crítico. O mercado encontrou outras possibilidades de dinheiro. Isso não deveria ser colocado em pauta neste momento de iluminismo. Como todo mundo tem espaço para divulgação e não está mais só nas mãos de alguns decidir quem é legal, o que acontece? A Mallu estoura. É o retrato disso: são pessoas achando bom e falando umas para outras.Para você, qual o destino do CD nesse cenário?Acho que ele permanece como suporte físico por vários motivos. Já pensei que ele ia se extinguir totalmente, que a própria idéia de armazenar coisas seria obsoleta, porque, na medida que pode acessar a informação, não há motivo para armazená-la. Uma parte minha ainda pensa assim: para encontrar CD em casa, dá mais trabalho do que ir ao YouTube e ouvir a música que eu quero. Ao mesmo tempo, outro dia estava mexendo no meu amontoado de CDs, catei um e falei: "Pô, o CD." Quem gosta de música não troca isso por nada. Você acha que o público que seguia o Los Hermanos está acompanhando você agora?Não acho. O público da banda tem um senso crítico alto. São superchatos com algumas coisas, o que eles não gostam não gostam mesmo e não fazem muita concessão. Acho que existe uma parte grande do público do Los Hermanos que se identifica com meu jeito de fazer melodia, com minha letra. Mas também tinha uma parte que gostava do Rodrigo (Amarante) ou só de rock, ou não se identifica quando há um código de brasilidade mais latente. Este último caso é recorrente. Quando a pessoa ouve um código brasileiro, o rejeita. Por falar em Los Hermanos, a banda retornará algum dia?Sinceramente, não penso muito nisso. Estou fazendo a turnê agora. O jeito como a gente promoveu o recesso foi tão natural quanto sentir saudade. Foi tão natural quanto voltar.Mas há chances de voltar?Não sei, não discuto com o destino. ServiçoMarcelo Camelo. Citibank Hall (1.450 lug.). Av. dos Jamaris, 213, Moema, 2846-6010. 6.ª e sáb., 22 h. R$ 50/R$ 120

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