Na Cultura, clássicos com frescor

Tudo O Que É Sólido Pode Derreter fala do cotidiano adolescente com poesia

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

30 de março de 2009 | 00h00

O mais surpreendente da nova série Tudo O Que É Sólido Pode Derreter, que estreia no dia 10, às 19h30 na TV Cultura, é maneira como é feita a fusão do cotidiano da adolescente Tereza (Mayara Constantino) e algum clássico da literatura.Thereza é o tipo de pessoa que se deixa influenciar pelo que lê no momento. É a leitora dos sonhos de qualquer escritor, que põe o Diabo e o Anjo de O Auto na Barca do Inferno em um programa de auditório. Ou que vive uma verdadeira epopeia para fazer o documento de identidade, uns dias depois de começar a ler Os Lusíadas. "A Thereza sou eu", diz o diretor e roteirista Rafael Gomes, famoso pelo hit Tapa na Pantera.A ideia de aproximar o cotidiano adolescente com o melhor da ficção surgiu em 2005, quando Rafael e o amigo Esmir Filho filmaram o curta Tudo O Que É Sólido Pode Derreter. Soturno e poético, o filme de 16 minutos vê a vida de Debora (interpretada pela mesma Mayara) pela ótica de Hamlet, de Shakespeare. "Com o roteiro, vencemos o Cultura Inglesa Festival. Deu tão certo, foi tão bem-aceito, que pensamos em continuar com a história. Aprofundamos a personalidade da personagem e mudamos o nome para Thereza", explica o diretor.Naquele momento, Rafael e Esmir tinham duas certezas: que a série deveria apresentar clássicos da língua portuguesa e que a emissora certa para apresentá-la era a TV Cultura. "Partimos do princípio que usaríamos especialmente obras de domínio público. E a ideia era fazer uma apanhado grande do que é a literatura brasileira", explica Rafael.Nos seus 13 capítulos, Tudo..., vai de Gil Vicente e Camões a Drummond e Mário de Andrade, passando por Machado de Assis e Padre Antonio Vieira. "Não há quem não tenha de ler estes escritores na escola, então partimos desse universo. E também das obras que tivessem potencial dramático no círculo de personagens que criamos para a série", detalha Rafael. "O maior desafio foram Os Sermões do Padre Antônio Vieira. Nós nos empenhamos para que o episódio fosse dinâmico e divertido. Criamos uma história em torno do Marcos (Victor Mendes), que tem problemas com o pai autoritário, e trabalhamos a figura da autoridade."No 12º episódio, Tereza vai conviver com heterônimos, como Fernando Pessoa. No 13º, será uma anti-heroína de atitudes egoístas, influenciada por Macunaíma. É uma personagem forte, tipo interessante de adolescente que vai da poesia à acidez de maneira bastante verossímil. "Ela senta na terceira carteira - não está na primeira nem é da turma do fundão", define Mayara. "Ela sempre estuda, não especialmente para uma prova. É um momento dela, e é aí que ela viaja."A série se passa na casa de Thereza, onde ela convive com os pais, e numa escola pública do ensino médio, na qual desenvolve relações de amor e ódio tipicamente adolescentes. Muitas vezes sufocada pelo cotidiano, a garota escapa para um mundo de delírio, onde pode encontrar personagens e escritores, além do seu tio, que morreu há pouco tempo. "É um personagem que já nasceu morto, que aparece em flash-backs e nos muitos momentos em que a Thereza está no mundo poético", observa o ator Luciano Chirolli, que interpreta o personagem. "O que eu mais gosto nesta série é a capacidade que a Thereza tem de fazer um pouco de romance e poesia no seu dia a dia. Acho que a série desperta esse tipo de observação nas pessoas."

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