Na América Latina, persiste um tipo de Guerra Fria

Embaixador e escritor, o chileno Jorge Edwards fala sobre problemas da região

, O Estadao de S.Paulo

02 de setembro de 2009 | 00h00

Literatura e política sempre se cruzaram na carreira do escritor chileno Jorge Edwards - embaixador, foi nomeado em 1971 pelo então presidente Salvador Allende como representante do país em Cuba a fim de restabelecer relações diplomáticas com o governo de Fidel Castro. Mas, ao se posicionar contra os abusos em relação aos direitos humanos e ao cerceamento da liberdade, Edwards foi expulso da ilha. Pior: também foi repreendido por Allende e ainda cultivou inimizades entre os pensadores de esquerda."Vejo sinais de cansaço, de grave deterioração econômica e política, de desencanto, mas ainda não percebo sinais de uma verdadeira democratização em Cuba", comentou ele, que participa hoje do evento Pensar Iberoamérica, no Instituto Cervantes, com mediação de Laura Janina Hosiasson. "As impressões que recebo, sobretudo de amigos escritores, não me dão motivo para ser otimista."A vivência como embaixador em Cuba forneceu, ao menos, um fértil material para Edwards escrever sua principal obra, Persona Non Grata, publicada em 1973 e sem edição atual em português. O livro, aliás, continua sem ser editado na ilha de Fidel. Depois daquele episódio e da queda de Allende, em 1973, o escritor exilou-se na Espanha durante cinco anos. Retornou ao Chile em plena ditadura de Augusto Pinochet, posicionando-se contrário ao regime. "Minha experiência em Cuba e no Chile de Pinochet revelou que a chave do problema ditatorial estava na liberdade de expressão e de imprensa", observa. "O que acontece agora na Venezuela em relação aos meios de comunicação, e que tende a se repetir no Equador, me parece inquietante e retrógrado. O autêntico problema da América Latina atual continua sendo a democracia e as liberdades públicas."No rastro desse raciocínio, Edwards foi também enfático quando perguntado pelo Estado sobre a função de organizações fundadas com a intenção de unificar a região latino-americana. "Se não servem para ajudar a reconstruir uma democracia moderna, desenvolvida, solidária, culta ao invés de sucumbir diante de montanhas de ofensas e palavrórios, então Mercosul, OEA, Unasur não servem para nada", acredita. "Continuamos a cultivar, na América Latina, a confrontação ao invés de colaboração e acordos. Parece que somos a última região do mundo onde ainda persiste a Guerra Fria."Ganhador do Prêmio Cervantes, considerado o mais importante das letras espanholas, em 1999, Jorge Edwards busca, em seus escritos, retratar a sociedade chilena, dividida entre o tradicional e a decadência. Assim, nunca se rendeu à tentação de participar do realismo mágico, gênero que marcou época na literatura latina. "Minha experiência pessoal está distante da Macondo de García Márquez. Por isso, na América Latina, os escritores que mais me interessam são Machado de Assis e Jorge Luis Borges." U.B.ServiçoPensar Iberoamérica - Jorge Edwards. Instituto Cervantes. Avenida Paulista, 2.439, tel. 3897-9609. Hoje, 19h30. Grátis

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