''Na América Latina, a realidade supera a ficção''

O peruano Hernán Garrido-Lecca participa de debate ao lado de Ruth Rocha e Ana Maria Machado sobre os caminhos mais criativos da escrita infanto-juvenil

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2008 | 00h00

Depois de passar uma longa temporada contaminada pela vontade de sempre ensinar algo, além de passar lições de moral, a literatura infanto-juvenil peruana sofreu, finalmente, um sopro de renovação, apostando no incentivo da imaginação de seu público. E um dos principais responsáveis pela mudança é o economista, inventor e atual ministro da Saúde do Peru, Hernán Garrido-Lecca. Basta analisar dois livros recém-lançados pela editora Salamandra, Piratas no Callao (48 páginas, R$ 22) e Mena e Anisinha (40 páginas, R$ 26,50), ambos com tradução de Estevão Calahani Felicio.''Ele utiliza uma linguagem fluente, capaz de carregar o leitor com facilidade de uma página a outra'', atesta Ana Maria Machado, uma das principais autoras de história para crianças e adolescentes no Brasil e que participa, ao lado de outra grande escritora, Ruth Rocha, de dois debates ao lado de Garrido-Lecca. O primeiro ocorre hoje, às 15 horas, com entrada franca, no Instituto Cervantes, onde a conversa vai reunir Ruth e o autor peruano. Amanhã, será a vez do Rio de Janeiro, onde Ana Maria vai recebê-lo às 17 horas, na Livraria da Travessa do Shopping Leblon.O título dos debates, Literatura Infantil: do Pedagogismo à Leitura por Prazer, resume a intenção do encontro: como o efeito prejudicial do texto carregado de intenções moralistas cedeu espaço (e ganhou leitores) para uma obra mais criativa e estimulante. ''Especialmente na América Latina, onde a realidade supera a ficção'', comenta Garrido-Lecca, que respondeu às seguintes questões por e-mail:Como a literatura infanto-juvenil pode conquistar a atenção de jovens em uma época tão fortemente marcada por internet e videogames?Creio que são prazeres distintos. Há quem considere que videogames são um vício, assim como a internet, mas, antes que um vício, são uma forma de entretenimento (ainda que, efetivamente, podem converter-se - como a leitura - em um vício). O que me questiono é o que tornam jogos de vídeo em entretenimento, pois a maioria não passa de um ''remake'' de Hércules superando provas: a cada vitória, passa-se para o nível seguinte. Ou seja, nada mais que uma velha estrutura da tradição oral de quase todos os povos da Terra plasmada sobre uma tecnologia multimídia. Não acredito que a melhor tecnologia possa vencer a melhor história contada. É mais difícil hoje uma criança trocar uma boa história por um videogame do que há 50 anos, quando poderia preferir jogar futebol com tampinhas de garrafa? Não acredito. Ganhará sempre quem contar a melhor história, com ou sem vídeo.Qual o caminho que um escritor para jovens deve evitar hoje?Deve-se evitar, primeiro, o moralismo. A tentação de subestimar as crianças é freqüentemente muito grande entre aqueles que se arriscam a escrever para esse público. Se querem pregar contra o consumo de drogas, é melhor utilizar a televisão. Passar lição de moral é a melhor maneira de afastar o prazer de ler das crianças. Afinal, a literatura infantil é a que também deve agradar às crianças.Piratas no Callao é um relato de ficção e aventuras, com antecedentes históricos. Como unir ficção e realidade histórica de maneira agradável e satisfatória?Povos mais antigos, portanto, também mais sábios, honram seus antepassados contando suas façanhas. A História está repleta de relatos incríveis que, bem contados, deleitam pequenos e adultos. Veja o sucesso dos canais de história e biografia na televisão a cabo. Além disso, todos sabemos que, especialmente na América Latina, só a realidade supera a ficção. No fundo, realidade e ficção se alimentam uma da outra e a literatura é um espaço perfeito para dar conta disso.O senhor já disse que a indústria do futuro está no entretenimento. Que lugar a literatura para jovens pode ocupar nesse ramo?A literatura é arte, mas também faz parte da indústria do entretenimento ou o que os espanhóis chamam de ''indústria do ócio''. O crescimento e o desenvolvimento de países como China e Índia, além de regiões como a própria América Latina, vêm criando um novo e grande grupo humano que crescentemente vai demandar entretenimento em todas as suas formas. A literatura é fonte fundamental de outras formas de diversão como a tevê, o cinema, os videogames e até parques temáticos que, por sua vez, implicam em hotéis, restaurantes e espetáculos. O império Disney é um exemplo claro de até onde pode chegar uma história bem contada por um simpático rato. J.K. Rowling, atualmente, não viu nem a metade do que se construirá a partir de sua obra.O senhor é político, economista e também inventor. Como essas atividades influenciam sua literatura?O denominador comum de tudo que faço é minha fé na imaginação, a arma mais poderosa que temos para enfrentar o que nos espera - seja em política, economia, arte ou na vida cotidiana. Caminho por essa estrada tratando de descobrir o que ainda não existe.O senhor também já escreveu poesia. Escrever literatura para jovens é mais difícil que para adultos?Crianças e jovens têm tolerância zero com aquilo que não gostam. Se, na segunda página não se capturou seu interesse, deixam o livro de lado. Os adultos normalmente são mais concessivos, influenciados pela fama do autor, por uma boa crítica ou até pelo preço que pagaram pela obra. Assim, podem ler cem páginas antes de descobrir que não gostaram do livro. Por isso, escrever para crianças e jovens é mais difícil. A outra face dessa moeda é que, quando uma criança diz que gostou de seu livro, acredite, pois é verdade. Já com um adulto, nunca se está seguro.Como classificar a literatura para jovens na América Latina em relação ao resto do mundo? Há alguma particularidade?Na América Latina, é, acredito, o lugar no mundo onde a realidade supera a ficção com maior freqüência. As contradições são grandes e somos bons contadores de histórias: é uma combinação que fertiliza o campo para a criação literária.Serviço Hernán Garrido-Lecca.Instituto Cervantes. Avenida Paulista, 2.439, Bela Vista, telefone 3897-9600. Hoje, às 15 horas. Entrada franca

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