Músico parece à vontade no lugar do compositor

DOCUMENTO: A sensação de que Gould parece encarnar o próprio compositor quando toca se repete de modo sintomático com outras pessoas que conviveram com ele, dedicaram-lhe pesquisas de vida inteira ou mesmo milhões de ouvintes espalhados pelo mundo inteiro que assumem uma atitude quase religiosa, num culto semelhante ao que cerca as superstars da indústria cultural, sobretudo as do cinema e da música pop.No DVD Glenn Gould - Au-Delàs du Temps, o cineasta francês Bruno Monsaingeon conta que, ao observar uma nota errada na derradeira fuga de Bach, deixada inacabada por causa da morte do compositor, "ele não parecia mais ser Gould, mas o próprio Bach. Se ele tivesse vivido um pouco mais, com certeza teria corrigido isso, disse-me Gould. Naquele momento, não era mais Gould quem tocava, mas o próprio Bach".Contudo, será que o intérprete tem o direito de arrogar-se ocupar o lugar do compositor? Esse paradoxo turbina o fascínio em torno de Gould. Ele diz, num dos depoimentos do DVD, que "até o século 18, intérprete, compositor e público eram apenas um"; e que seu "sonho é reconstituir essa união cósmica". Experimente ouvir o tema das Goldberg e você perceberá bem o que Monsaingeon está dizendo. Gould dá a impressão de seguir a música aonde ela queria ir. A escrita musical, para ele, é uma coleção de sinais através dos quais ele remonta às ambições ocultas da música. "Isso o levava muito longe", diz o dublê de escritor e musicólogo italiano Alessando Baricco num ensaio apaixonado, "longe de qualquer fidelidade literal aos textos, e, no entanto, precisamente nesse ?longe? ele encontrava com freqüência a proximidade mais íntima com o segredo do texto musical. Esse absurdo é a lição preciosa que ele nos deixou".

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

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