Música para acompanhar gênios da palavra

Em Sonata do Absoluto, Eduardo Seincman cria obras inspiradas por textos de Borges, Allan Poe e Machado de Assis

João Marcos Coelho, O Estadao de S.Paulo

07 de dezembro de 2007 | 00h00

Deixar fluir, em termos sonoros e visuais, a estrutura de um conto ou um poema, ''''traduzir'''' em sons e imagens as palavras, sem cair na tentação fácil da música de programa literal. Este é um desafio quase intransponível para quem lida com a criação musical e visual. Pois é este o propósito do compositor Eduardo Seincman e do artista plástico Evandro Carlos Jardim em Sonata do Absoluto, livro-CD que será lançado amanhã em concerto na Pinacoteca.Um projeto longamente maturado, que levou 23 anos, do nascedouro à sua realização completa por meio de um Livro-CD que beira a perfeição como objeto artístico. Traz em edição bilíngüe o conto O Milagre Secreto, de Jorge Luis Borges, com tradução de Carlos Nejar, o poema O Corvo, de Allan Poe, na clássica tradução de Fernando Pessoa; e o conto Trio em Lá Menor, de Machado de Assis.Você pode começar degustando a bela série de gravuras, águas-fortes e águas-tintas de Evandro Carlos Jardim que acompanha os textos. Ou então ler acompanhado pela ''''trilha sonora'''' de Seincman, por meio da gravação dos três trios, em ótima interpretação de alguns de nossos mais qualificados músicos, como Nahim Marun, Luis Montanha, Marcelo Jaffé e Robert Suetholz.''''Cada uma destas obras tem dois autores: o Eduardo de 2007 que restaurou, costurou, reviu e esclareceu muitos pontos obscuros dos Eduardos anteriores'''', diz Seincman. A música para Borges é de 1984; a de Poe de 1990; e a de Machado de 2003. Isso explica em parte por que os trios apresentam sonoridades, materiais e meios expressivos tão diferenciados. E até sugere, no itinerário criativo de Seincman, a tendência, ao longo deste período, de compor música cada vez mais comunicativa, ou acessível.Em todo caso, esta pode ser uma interpretação redutora, já que os enredos de Borges (a suspensão do tempo em favor da criação imediatamente antes de o personagem ser fuzilado) e de Poe (óbvio, no caso de O Corvo) são muito mais dramáticos e tensos do que a ironia de Machado ao mostrar a senhorinha Maria Regina tentando inutilmente juntar a inteligência do Miranda cinquentão com o desmiolado mas bonito rapagão Maciel.''''Para que esta tradução musical dos textos fosse factível, tive de captar o que havia de musicalidade nestes textos e a partir daí efetuar não uma música de programa ou ilustrativa, mas obras que refletissem as questões musicais que os próprios textos me sugeriam'''', diz o autor. Daí a adoção de estratégias simultâneas, como citar obras musicais que os autores colocam em seus textos. Em Borges, ele põe uma pitada de Brahms e Wagner, mistura-os com um ritmo de tango. E, definitivamente, mergulha na colagem de cabeça na música para Machado, compondo um caldeirão sonoro onde cabem de Revêrie, de Schumann, ao Hino Nacional Brasileiro, passando por Bellini, Schubert, Villa-Lobos, Mozart e Vivaldi. Tudo, acredite, sem perder o tom ou cair na breguice. Aliás, um jogo delicioso pode ser tentar identificar as citações. Repito: elas soam adequadas e não banais. Costuram em sons o universo realista de Machado, que Seincman qualifica de simultaneamente ''''dramático, irônico, teatral e caricato''''.Não por acaso a música de O Corvo destoa das demais. ''''Considero que ela tem uma proposta de poema musical. Isto é, possui muito pouco material que é explorado em profundidade através de variações, mudanças de pontos de vista, que implicam, é claro, mudanças de timbre, dinâmica e harmonia. Os outros trios não são poesia, e sim prosa, possuem uma narrativa. E isso os torna de caráter mais épico e não tanto lírico'''', diz.Não deixa de ser sintomático que compositores como Seincman e vários outros não se sintam mais obrigados hoje em dia a fazer da complexidade sinônimo de novidade. O difícil não é necessariamente bom. Às vezes é simplesmente chato, verborrágico, vazio. Esta ''''liberdade'''' despoliciada, Seincman deixa transparecer nesta confissão: ''''Tenho ultimamente deixado o material falar. Ou seja, o próprio material me sugere, até certo ponto, o modo de explorá-lo. É como se eu criasse um personagem que vai me dizendo coisas e modificando a minha própria abordagem com relação a ele''''. Quem for à Pinacoteca amanhã às 13 horas vai se encantar com este projeto multimídia. Sobretudo com a contagiante música de Eduardo Seincman.Serviço Sonata do Absoluto. De Eduardo Seincman. 80 págs., R$ 60. Pinacoteca. Praça da Luz, 2, 3229-9844, metrô Luz. Amanhã, 11 h (concerto às 13 h)

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