Música e periferia: são os brasileiros em Paris

O Homem que Engarrafava Nuvens e Jardim Ângela foram atrações do fim de semana na mostra realizada na capital francesa

Luiz Carlos Merten, PARIS, O Estadao de S.Paulo

11 de maio de 2009 | 00h00

Havia uma plateia entusiasmada, que não resistia e acompanhava, ritmando com os pés, cada vez que Asa Branca voava na tela do Le Nouveau Latine. A sala do 4ème Arrondissement, na Rue du Temple, próxima à prefeitura (e a Notre Dame), sedia o 11º Festival do Cinema Brasileiro de Paris. O evento é uma realização da ONG Jangada. Kátia Adler é a diretora artística. Ela divide o festival em duas mostras. A de ficção, que terminou na terça passada, incluiu Feliz Natal, de Selton Mello - que aqui se chama Décembre -, Meu Nome não É Johnny, de Mauro Lima, e Os Desafinados, de Walter Lima Jr. A de documentários vai até amanhã, quando o 11º festival termina com show de Adriana Calcanhotto, Moreno Veloso e Domenico Lancelotti, celebrando a bossa nova, grande homenageada desta edição.O festival outorga prêmios do júri e do público. O primeiro é presidido por Pierre Richard e integrado pelo diretor de fotografia Ricardo Aronovich. Os documentários de sábado à noite foram Jardim Ângela, de Evaldo Mocarzel, seguido de debate com o diretor, e O Homem que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira, sobre Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga, o célebre rei do baião. É no Homem que se ouvem não apenas Asa Branca, na voz de Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gal Costa, além da execução por uma banda de pífanos, mas também Assum Preto e outros clássicos associados ao baião, o ritmo que Gilberto Gil define como uma das duas dinastias da música brasileira (a outra é o samba). O Homem foi produzido pela filha de Humberto, o chamado "Dr. do baião", a atriz Denise Dummont. Ela se lança em busca da solução de um enigma. Quando seus pais se separam, Denise ficou com Humberto, mas, como ela diz, nunca o conheceu de fato. Quem é (foi) esse homem?Logo no começo, a própria Denise observa que talvez essa seja uma pergunta sem resposta e as pessoas devam permanecer envoltas num mistério. Mas o filme busca iluminar o artista e o homem. Depois de Cartola, Música para os Olhos, Lírio Ferreira crava outro belo documentário musical. Não é só a música, o ritmo nem mesmo o artista. É toda uma história do Brasil que desfila ante nossos olhos. Infelizmente, Denise, presa por uma (boa) gripe no País, não pôde vir debater o filme com os parisienses. Evaldo Mocarzel veio. Jardim Ângela foi o documentário que ele fez com os alunos de uma oficina de cinema que ministrou na região paulista do título, a convite da associação Kinoforum, que organiza o Festival Internacional de Curtas de São Paulo.Embora não seja bom, o filme propõe uma discussão interessante sobre documentário e ficção e sobre os códigos de representação da violência associada à periferia. Um garoto defende a realização de um filme de ação, onde ele próprio mata, na ficção, o pai bêbado que oprime a família. Uma garota considera esse desfecho pessimista e quer dar ao pai uma segunda chance. Cria-se uma discussão pertinente. O filme dentro do filme fica um tanto didático, dramaturgicamente pobre nas suas boas intenções. O próprio documentário seria outro se Evaldo contasse a história real. O garoto, Washington, virou (na vida) chefe do tráfico, foi baleado e descobriu a religião. Sua história (real) daria o filme que a colega queria fazer. O documentário acabado tem a cara da divisão do grupo. Mas tem momentos fortes que estimularam a discussão. Franceses e brasileiros, presentes à sessão, acham que o cinema brasileiro encara com mais honestidade (e força) o problema da periferia, que também existe na França.

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