Museu fecha acordo com espanhóis

Fundação vai emprestar fotos do russo Rodchenko e do norte-americano Nixon

Antonio Gonçalves Filho, Madri, O Estadao de S.Paulo

05 de novembro de 2008 | 00h00

A inauguração das novas salas de exposição da Fundación Mapfre, em Madri, com exposições dedicadas ao pintor e escultor francês Degas (1834- 1917) e ao fotógrafo norte-americano Nicholas Nixon, marca também o início de uma parceria importante para o Museu de Arte de São Paulo (Masp), que emprestou sua coleção de 73 esculturas de Degas para a mostra espanhola e vai receber em troca, no próximo ano, uma exposição que já esteve no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) e é considerada o ponto máximo da carreira de Nixon, As Irmãs Brown. E isso é apenas o começo. Também no próximo ano deve chegar ao Masp uma exposição de fotografias do construtivista russo Rodchenko (1891-1956), pertencentes ao acervo da fundação espanhola, que tem em sua coleção de fotos mestres como Walker Evans, Helen Levitt e Diane Arbus.O acordo com o Masp deve trazer ainda a São Paulo parte da preciosa coleção de desenhos (de Picasso, entre outros) da Fundación Mapfre, segundo anúncio feito pelo diretor-geral do seu Instituto Cultural, Pablo Jiménez Burillo. Em retribuição, o Masp manda 34 retratos e auto-retratos de Goya, Velázquez, Van Gogh e outros de sua exposição Olhar e Ser Visto (em cartaz desde 10 de outubro) para uma mostra temporária na sede do instituto espanhol, organizada pelo curador do museu, Teixeira Coelho. Naturalmente, Coelho não fechará os olhos para outras cobiçadas exposições organizadas pela fundação espanhola, entre elas uma de ?collages? do surrealista Max Ernst, 184 obras que não são vistas desde 1936, quando começou a Guerra Civil Espanhola.A exposição As Irmãs Brown, que fica em Madri até 6 de janeiro, pode também representar para o Masp um sopro de renovação importante num momento em que o museu paulista busca a reorganização de seu acervo, iniciada há um ano com a primeira (A Arte do Mito) das quatro exposições temáticas da série que comemora seus 60 anos . Metade desse tempo gastou o fotógrafo Nicholas Nixon para organizar sua mais famosa série, que acompanha a trajetória de quatro irmãs desde 1975, registrada em 33 fotos que tiveram apenas sete impressões, uma das quais pertence à Fundación Mapfre, fundada justamente no ano em que o americano concebeu o projeto.Nixon foi formado na tradição humanista de Walker Evans, que desenvolveu uma narrativa fotográfica próxima da literária sem renegar a ligação umbilical com a realidade. Isso custou a Nixon, por exemplo, vários protestos quando iniciou sua polêmica série People With Aids (1987), que documenta a devastação causada pela doença. Se Evans e Helen Levitt saíam atrás de operários para documentar o duro cotidiano dos trabalhadores nos anos 1940, Nixon não recuou diante de doentes terminais nos anos 1980, provocando protestos de grupos ativistas como o Act Up!, que o acusou de sensacionalista, boicotando a abertura da exposição em Nova York.Na série As Irmãs Brown, Nixon, nascido em Detroit há 61 anos, revela outra inclinação estética. Está mais próximo da linguagem de Edward Weston, considerado o mais influente fotógrafo americano do século que passou. Optando por uma câmera antiga, dessas que fariam a alegria de Weston, Nixon decidiu em comum acordo com as irmãs de sua mulher Beverly (Bebe) registrar as quatro ano a ano, sempre na mesma posição. A primeira tentativa foi feita em 1974, quando o casal passou a viver em Boston. Nixon, na contramão de outros fotógrafos, que optavam por câmeras mais leves, resolveu usar uma câmera de grande formato. Descontente com o primeiro registro, jogou o negativo no lixo. Finalmente, em 1975, a série foi iniciada. As quatro irmãs - Heather, Mimi, Bebe e Laurie, sempre nesta ordem, da esquerda para a direita - aparecem nessa primeira foto com 21, 23, 25 e 15 anos, respectivamente. Na última, registrada no ano passado, Bebe, mulher do fotógrafo e a mais velha da turma, já ostenta - mais do que gostaria - as marcas do tempo, que não poupou a beleza pré-rafaelita das meninas.Ver o conjunto dessas 33 fotos juntas numa sala é mais que uma experiência proustiana de rememoração. A qualidade da impressão ajuda a fixar o inventário visual de Nixon da própria geração, que passou pela guerra do Vietnã, por Woodstock, Lyndon Johnson e deve chegar a Barak Obama, se as pesquisas estiverem certas. Além do peso da experiência existencial, é possível notar, como num retrato familiar, quem é mais próximo de quem pelos gestos de aproximação ou relativa distância. Em todo caso, a perseverança do quarteto impressiona, não só por respeitar o projeto ano após ano como pela coragem de expor sentimentos de natureza privada num registro público destinado às paredes dos museus.Quando a série foi exposta em Washington, Tyler Green, que assina o mais influente blog de artes visuais dos EUA, notou que a ternura e a camaradagem exibidas na série pelas irmãs poderiam ser uma idealização do fotógrafo, filho único de pais que também eram filhos únicos . Notou também que a reação dos homens e das mulheres diante das fotos era totalmente diversa. Os homens tendem a se concentrar nas fotos dos primeiros anos, atraídos pelo frescor juvenil dos rostos. As mulheres fixam-se nas últimas fotos, mais voltadas à intimidade dessas mulheres maduras, resignadas com a passagem do tempo. Praticamente ignoram a beleza da juventude.Resta esperar que a exposição de Nicholas Nixon seja apenas o começo do acordo Mapfre-Masp. A fundação espanhola enriqueceu recentemente sua coleção de fotografias - que tem obras de profissionais renomados (Graciela Iturbide, entre eles) - com registros de Walker Evans, Lee Friedlander e Garry Winogrand, entre outros. O repórter viajou a convite da Fundación Carolinae Fundación Mapfre

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