Wilton Junior|Estadão
Wilton Junior|Estadão

Museu do Amanhã expõe tendências para os próximos 50 anos

Exposição tem abertura prevista para 19/12, no Rio de Janeiro

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2015 | 03h00

RIO - Um museu de ciência que detalha o impacto das ações humanas sobre o planeta, concebido para provocar, de modo simultâneo, reflexão e emoção e que oferece ambientes tão tecnológicos quanto poéticos. Assim promete ser o Museu do Amanhã, com inauguração prevista para 19 de dezembro, passados cinco anos de uma obra complexa. O futuro museu se apresenta como novidade pela arquitetura - erguido sobre o Píer Mauá, junto da renovada Praça Mauá, orla da Baía de Guanabara, é assinado pelo estrelado espanhol Santiago Calatrava, conhecido pelas edificações inusitadas e impressionantes que espalhou pela Europa - e pelo conteúdo, único no mundo, segundo o curador, o físico Luiz Alberto Oliveira. 

Avistar o prédio branco em um terreno de 30 mil m² já causa forte impressão. Em formato de barco, ele é circundado por espelhos d’água e jardins desenhados pelo escritório do paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994). A cobertura metálica avança além do corpo do edifício, formando marquises. A estrutura vazada propicia a passagem da luz natural, o que torna o passeio mais agradável. O edifício utilizará água da baía para sua climatização. A energia solar captada vai suprir 10% das necessidades do museu. A neutralização de suas emissões de carbono é promessa do Banco Santander, principal patrocinador do empreendimento, concebido pela Fundação Roberto Marinho e executado pela prefeitura do Rio.

Já na entrada, o visitante se depara com um globo terrestre suspenso de quatro metros de diâmetro, recoberto por placas de vídeo, em que estão representados os continentes, correntes marítimas, comportamento das calotas polares e a relação de causa e efeito entre os fenômenos naturais e humanos, caso de tsunamis e movimentos migratórios.

“As pessoas vão ver como uma tempestade de areia no Saara faz chover mais na Amazônia, qual é o impacto de uma queimada”, conta o curador, doutor em cosmologia e pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Usamos a linguagem da arte para causar impacto sensorial e emocional. Pertencemos a uma linhagem de museus que convida o visitante a participar de uma experiência”, explica. 

A visita, que deve durar entre 1h30 e 2 horas, começará no Portal Cósmico, espaço dedicado à história do universo planeta Terra. Nas paredes de uma cúpula negra, será projetado um filme da produtora O2, com 8 minutos de duração, do cineasta Fernando Meirelles. O diretor, Ricardo Lagarano, diz que não queria um documentário científico: buscava mais uma experiência artística do que uma aula.

“Foi difícil dominar 14 bilhões de anos em oito minutos. A ideia era ter não um conteúdo de planetário, que pode ser chato para quem não gosta do assunto, e sim emocionar as pessoas”, revela. O público, entre 70 e 80 pessoas por sessão, poderá ver o filme recostado em almofadões.

Transposto esse portal, o visitante será apresentado aos ecossistemas da Terra. Telas mostrarão imagens aéreas de diferentes biomas do Brasil. Balcões com telas touch interativas mostram informações, como as características da água e do movimento do planeta em relação ao sol. 

Na sala sobre os mares, tecidos bailarão no ar, impulsionados por ventilador, para ilustrar como se dão as mudanças climáticas. Mais adiante, três cubos de 7 m de altura e de largura demonstrarão as três dimensões da existência, matéria, vida e pensamento. Será uma oportunidade de o visitante se aprofundar em diferentes espaços geográficos, como mangue, restinga, florestas, e de descobrir sequências de DNA.

A visita culminará no espaço do Antropoceno, período mais recente na história da Terra. Totens de 10 m exibirão imagens vertiginosas, que representam o efeito do consumo humano de alimentos, do despejo de resíduos tóxicos no ambiente e do uso de fertilizantes, entre outras práticas, para o futuro da biosfera. Ali, serão expostas as tendências para os próximos 50 anos, diante de um quadro de escassez de insumos, aumento populacional - a perspectiva é de que seremos 10 bilhões de pessoas em 2060 - e longevidade humana.

Já o fim do percurso, em contraposição, será sereno, numa espécie de oca tecida por quadrados de madeira encaixados, que terá no meio uma churinga, considerado um dos mais antigos artefatos humanos e ao qual populações primitivas atribuem o poder de conectar gerações passadas e futuras.

Ideia é inspirar atitudes sustentáveis nos visitantes

Uma das principais obras da nova zona portuária, uma área histórica, porém degradada, que vem sendo revitalizada nos últimos cinco anos, o Museu do Amanhã é irmão do Museu de Arte do Rio (MAR), que fica na mesma Praça Mauá e foi inaugurado em 2013. Um passe que sirva aos dois deverá ser criado para facilitar a visitação. 

A inauguração para o público está marcada para o dia 19 de dezembro, com um viradão - o museu vai abrir às 10 h e só fechará às 18 h do dia 20. Dias 19 e 20, a entrada será gratuita. A partir da semana seguinte, o ingresso deve ficar em R$ 8.

Executada pela prefeitura, a obra custou R$ 215 milhões e atrasou quatro anos. “Foi pela dificuldade arquitetônica. Deus queira que a data não mude mais. O museu traz novas paisagens para a cidade”, disse o prefeito Eduardo Paes (PMDB), em entrevista por telefone na quarta-feira, dia 18. O conteúdo foi desenvolvido em parceria com universidades brasileiras e estrangeiras e entidades como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Planetário do Rio.

Por ser pioneiro, seu conteúdo desperta curiosidade em quem acompanha a longa construção. “Afinal, do que vai tratar o Museu do Amanhã?” - é uma pergunta que só encontra resposta ao se conhecer sua exposição permanente, afirmou Hugo Barreto, secretário-geral da Fundação Roberto Marinho, que concebeu o Amanhã com a bagagem trazida dos Museus da Língua Portuguesa e do Futebol, em São Paulo, e, no Rio, do MAR. 

“Os museus de ciência olham para os vestígios do passado, como o Museu de História Natural de Nova York, ou reproduzem fenômenos da natureza, como o La Villette, de Paris. Aqui, refletimos sobre que tipo de sociedade a gente quer. Pensamos no nome ‘Museu do Futuro’, mas é o amanhã que nos diz respeito”, disse também Barreto.

A curadoria e os designers Ralph Appelbaum, norte-americano, e Andrés Clerici, argentino, que trabalharam na concepção do Museu da Língua Portuguesa, refletiram qual seria a mensagem do museu, uma vez que ele trata de questões da atualidade. É nítido, ao fim da visita, que se busca inspirar atitudes sustentáveis nos visitantes. “A gente debateu por muito tempo como seria essa conclusão”, conta o curador. “O museu não pode ser nem otimista-ingênuo nem pessimista-depressivo, tem que ser realista. Nós apresentamos a melhor ciência para mostrar que os cenários do clima são preocupantes, mas são apenas possibilidades”, afirmou o curador Luiz Alberto Oliveira.

Segundo Andrés Clerici, os ambientes foram desenhados “como uma ópera” e houve a preocupação de que não fiquem datados rapidamente, nem em termos de forma nem de conteúdo. “Na era do Antropoceno, criamos uma ideia de vertigem, a pessoa se sente pequena. Ao fim, vem algo mais caloroso”, compara. “Não é um museu futurista, é humanista.”

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