The Metropolitan Museum of Art/Art Resource
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Museu de Nova York abre mostra com obras do pintor Chaïm Soutine

Exposição 'Flesh' reúne no Jewish Museum trabalhos que remetem às memórias de infância do artista

Tonica Chagas, Especial para o Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2018 | 06h00

NOVA YORK - Das lembranças de menino em Smilovitchi, a vila russa onde nasceu, nunca saiu da cabeça de Chaïm Soutine (1893-1943) ter visto um açougueiro, seguindo a tradição judaica, cortar e sangrar a garganta de um ganso. “Eu quis gritar, mas a aparência e a alegria dele prenderam o grito na minha garganta”, contou anos depois, quando já era um dos grandes pintores que surgiram em Paris nas primeiras décadas do século 20. “Sempre sinto o grito ali... Era esse grito que eu tentava libertar.” 

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A emoção que Soutine silenciou na infância ressoou em carcaças bovinas, aves degoladas e peixes de olhos esbugalhados que ele pintou, obsessivamente, por cerca de três décadas. Uma seleção de 32 daquelas obras reunidas em Flesh, mostra que o Jewish Museum de Nova York exibe até 4 de setembro, revive a sensação trágica do momento entre a vida e a morte que marcou tão profundamente um dos retratistas de maior impacto da arte moderna.

Num paralelo entre beleza e dor, entre animal e homem, Flesh acompanha a escolha que ele fez para afinar seu talento na pintura de naturezas-mortas quando emigrou para Paris, em 1913, enquanto outros jovens artistas da época seguiam as tendências do cubismo, do dadaísmo ou do futurismo. Guiado por seus instintos artísticos e observando a obra de mestres como Rembrandt, Cézanne e Courbet, Soutine criou a própria linguagem na arte de representar seres inanimados. 

Criou também uma coleção de histórias sobre seu processo criativo a partir da observação direta do modelo. As pessoas se espantavam ao vê-lo arrastando grandes pedaços de carne de algum matadouro para pendurá-los nas vigas do seu estúdio em Montparnasse. Eram constantes as reclamações de vizinhos por causa do mau cheiro dos bichos mortos e suspeitou-se de um assassinato quando o sangue de um deles escorreu por debaixo da porta para o corredor. 

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“As naturezas-mortas de Soutine adotam a noção modernista de que gesto, material e cor são tópicos da arte tanto quanto os objetos”, diz Stephen Brown, curador do Jewish Museum que organizou a exposição. Soutine reinterpretou os exemplos de naturezas-mortas que estudou no Louvre em imagens contorcidas e turbulentas, substituindo linhas descritivas pela aplicação de cores fortes e cruas em movimentos rítmicos sobre a tela. 

Natureza-Morta com Arraia, pintado por volta de 1924 e visto na entrada da exposição, é inspirado em A Raia, óleo sobre tela que Chardin pintou em 1728. Nas quatro versões que criou a partir da pintura de Chardin, Soutine arranjou objetos parecidos em seu estúdio, reduziu o número deles na cena e cortou o fundo para enfatizar as características do peixe destripado e de boca aberta. 

As várias telas com aves como tema são entendidas como referências ao “kaparot”, ritual judaico no qual os pecados são transferidos para uma galinha antes de o animal ser sacrificado para o Dia do Perdão (Yom Kippur). Em algumas das pinturas de Soutine, a posição do corpo e as linhas trêmulas de tinta sobre a tela sugerem que o animal ainda esteja se debatendo.

Em 1922, o médico americano Albert Barnes, que era um grande colecionador de pintura moderna, visitou o marchand Paul Guillaume em Paris e este lhe mostrou cerca de 50 pinturas de Soutine. Barnes comprou todas, pagando por elas cerca de 60 mil francos; com isso, permitiu a tranquilidade econômica do pintor e incentivou o sucesso dele entre outros colecionadores. 

Mas sair da miséria financeira não mudou a prática repulsiva de Soutine preparar as cenas de suas naturezas-mortas. Para pintar uma carcaça de boi, ele remontou no estúdio a cena de O Boi Abatido (ou O Boi Esfolado), pintado por Rembrandt em 1655, que viu no Louvre. Na sua versão, Soutine reduziu o cenário realista de Rembrandt apenas ao corpo aberto do animal, em tons de amarelo e vermelho, sobre uma superfície abstrata de tons azuis. Entre 1925 e 1926, ele teria pintado carcaças pelo menos dez vezes. Derramava sangue sobre a carne apodrecida para preservar a imagem de um animal recém-abatido e dar aparência fresca à carne. Ao ter seu material de trabalho confiscado pela polícia, ele fazia preleções sobre a arte ter importância maior que a higienização.

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As telas do seu último período de vida, criadas entre as vésperas da Segunda Guerra Mundial e durante o conflito, quando ele se refugiou numa zona rural a oeste de Paris, demonstram intenção mais naturalista do que as anteriores. Pequenas pinturas de animais ainda vivos, como a de um burrico, feita por volta de 1934, e a de um carneirinho do outro lado de uma cerca, do começo da década de 1940, apesar de melancólicas, são mais calmas que as carcaças de bois e aves depenadas.

Segundo uma inscrição feita por Marie-Berthe Aurenche, companheira de Soutine nos últimos anos de vida dele, A Lagoa de Patos em Champigny, de 1943, foi pintado em julho daquele ano, um mês antes da morte do artista. “Enquanto o estilo evoca a tradição da pintura de paisagens ao ar livre, a dinâmica das pinceladas e a sensualidade da superfície antecipam a abstração”, aponta Stephen Brown. Soutine deixou em suas telas inspiração para uma nova geração de vanguarda que buscava a expressividade gestual sem restrições. Francis Bacon, Jackson Pollock e Phillip Guston, entre outros, olharam para ele assim como ele olhou para Rembrandt. 

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