Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Museu americano exibe coleção de Pedro Corrêa do Lago

Pela primeira vez a Morgan Library & Museum de Nova York expõe o acervo de um brasileiro, a partir de 1º. de junho, mostrando 140 documentos históricos

O Estado de S.Paulo

13 Maio 2018 | 06h00

É certo que o primeiro impulso do editor carioca Pedro Corrêa do Lago como colecionador de autógrafos – pelos quais se entende cartas, documentos e manuscritos – foi “tocar” a história com os dedos, e não documentar a vida e incidentes de personagens históricos. Naturalmente, isso mudou com o tempo. Se, no começo, solicitar uma simples assinatura de uma personalidade bastava ao menino de 11 anos, filho do embaixador Antônio Corrêa do Lago e neto do estadista Oswaldo Aranha, hoje, passado quase meio século, sua ambição tem menos a ver com fetiche e mais com consciência histórica: fazer a ponte entre passado e presente, afinal, é o negócio de Corrêa do Lago, fundador da editora Capivara, que publicou premiados títulos dedicados aos pintores viajantes (Debret, Eckhout, Frans Post e Rugendas, entre outros).

E é exatamente com esse objetivo, o de reforçar o vínculo histórico entre personalidades de várias épocas, que Corrêa do Lago aceitou o convite para exibir parte de sua coleção privada na exposição The Magic of Handwriting (A Magia dos Manuscritos), que reúne 142 raros documentos na Morgan Library & Museum, em Nova York, a partir de 1.º de junho.

O título da mostra é referência a uma carta enviada ao poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) pelo escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942), que viveu no Brasil nos anos 1940 e foi também dono de uma valiosa coleção de autógrafos (recebida em doação pela British Library). Zweig tinha em seu acervo poemas originais de Rilke, um fragmento do Fausto de Goethe, uma carta de Maria Antonieta, a partitura de An die Musik, de Schubert, uma página corrigida da Sonata a Kreutzer de Tolstoi e cartas de Freud, que Zweig conheceu.

Highlights. A coleção de Pedro Corrêa do Lago inclui igualmente Freud e outros preciosos itens, como uma carta do pintor holandês Van Gogh descrevendo seu modesto quarto em Arles, um desenho original do francês Matisse, um fragmento do primeiro capítulo de Em Busca do Tempo Perdido de Proust, uma partitura original corrigida pelo próprio Puccini, esboços assinados por Michelangelo e Cocteau, além de cartas de mulheres venenosas como Lucrécia Bórgia e doces poetas como Emily Dickinson.

Esses 142 documentos estarão em exibição até 16 de setembro na Morgan Library, criada em 1906 para abrigar a biblioteca e a coleção do financista Pierpont Morgan (1837-1913). Não no edifício antigo, mas no moderno anexo projetado em 2006 pelo arquiteto italiano Renzo Piano. A expografia assinada por Daniela Thomas e Felipe Tassara acompanha o design contemporâneo do anexo, encravado entre os dois prédios antigos da Morgan, facilitando a visualização do acervo do colecionador brasileiro. Eles aboliram as divisórias na exposição, a primeira do Brasil a ser inaugurada na biblioteca/museu.

Pedro Corrêa do Lago tem uma ligação sentimental com a Morgan. Foi lá que, jovem, aos 17 anos, descobriu sua vocação colecionista, inspirado no acervo de Pierpont. Antes, ainda adolescente, tomou coragem e escreveu a escritores como Tolkien e cineastas como Truffaut. O autor de O Senhor dos Anéis não foi muito generoso, mas Truffaut enviou ao garoto um livro ilustrado e autografado baseado em seu filme L’Enfant Sauvage (1969). 

Mostras. O colecionador cresceu e virou representante da casa de leilões Sotheby’s no Brasil (de 1986 a 2012), o que facilitou seu acesso a documentos raros colocados à venda no mercado internacional. “Alguns investem seu dinheiro em imóveis; eu decidi comprar esses documentos.” Muitos deles já foram exibidos em grandes mostras, como a do pintor francês Toulouse-Lautrec no Masp, em 2017, para a qual Corrêa do Lago cedeu cartas do artista endereçadas à mãe. Outros serão vistos pela primeira vez fora do escritório do colecionador, que abriga mais de 100 mil documentos em arquivos à prova de fogo.

O documento mais antigo dessa coleção é uma bula assinada pelo papa Anastácio IV, em 1153. Entre os recentes destaca-se um livro do físico inglês Stephen Hawking, morto em março deste ano, que, devido à esclerose lateral amiotrófica, não assinou o volume, mas o marcou com uma digital. A coleção abrange todas as áreas de atividade cultural: literatura, música, cinema, artes visuais, etc.

Corrêa do Lago fala com entusiasmo de sua coleção de documentos brasileiros – muitos deles apareceram em livros e ele ainda ajudou instituições como Instituto Moreira Salles e o Itaú Cultural a criar as próprias coleções (o acervo fotográfico do IMS e a Brasiliana do Itaú). “Estamos levando para a exposição da Morgan um original de Machado de Assis (de 1906), partituras de Villa-Lobos e Jobim (Chega de Saudade, 1958), além de desenhos de Santos Dumont e Niemeyer.” Há também documentos curiosos, como uma carta do pintor flamengo Rubens comentando a invasão holandesa do Brasil, outra de Gauguin expressando sua preocupação com o estado mental de Van Gogh, além de fotos autografadas de Zapata, Mata Hari e desenhos assinados por Lewis Carroll e Charles Chaplin.

 

Mais conteúdo sobre:
Pedro Corrêa do Lago

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.