Muse e a tenda de truques do britpop

Em entrevista ao Estado, Matt Bellamy, cantor do grupo, revela que músico extra 'oculto' ajuda a criar massa sonora no palco

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

31 de julho de 2008 | 00h00

Toca hoje em São Paulo uma das grandes bandas de pop rock da atualidade, o trio britânico Muse, que costuma ser headliner (equivale a dizer que ocupa o palco principal) dos maiores festivais europeus. A banda toca no HSBC Brasil esta noite (ontem tocaria no Vivo Rio, e no sábado estará no Porão do Rock, em Brasília).Seria uma noite interessante mesmo que fosse só para ouvir a versão do cantor do Muse, Matt Bellamy, para a pérola que Nina Simone imortalizou, Feeling Good. Mas há bem mais que isso: canções como a balada Time Is Running Out e Supermassive Black Hole (mais dançável) mostram uma banda versátil, com um domínio pleno do espetáculo de arena - apesar de ser um trio, a massa sonora que produz é bastante satisfatória.Reunindo, para alguns, a fleuma vocal do Radiohead e a grandiloqüência orquestral do Queen, além de um timing perfeito do sentido épico da canção, algo mais ou menos assim, o Muse já tem 10 anos de estrada e uma carreira sólida, que parece ter chegado ao auge em 2004, quando músicas como Absolution ganharam o mundo todo.Na iminência de lançar um trabalho novo, que sucederá Black Holes and Revelations, de 2006, a banda faz suspense sobre o que virá por aí. "Temos muitas idéias diferentes, canções exploradas de muitos jeitos e em muitas direções", disse ontem Matt Bellamy, falando por telefone ao Estado, de seu quarto no Copacabana Palace, Rio de Janeiro. Bellamy andou confessando admiração pela cena new rave inglesa, bandas como New Young Pony Club e Klaxons."Acho que nossos discos anteriores sempre tiveram músicas com esse aspecto dance, como Supermassive Black Hole e mesmo outras dos primeiros discos, como Bliss (do segundo álbum da banda, Origin of Symmetry, de 2001). A música eletrônica também sempre está presente, e nossa conexão com a dance music dos anos 80 e 90 é conhecida. A chance é de que isso reapareça no novo disco", afirmou o vocalista.O Muse fez de Black Holes and Revelations um álbum com expressa preocupação política e social, particularmente em músicas como A Soldier?s Poem. Bellamy diz que essa faceta do seu trabalho ressurgirá no álbum que virá a seguir, provavelmente no ano que vem. "Há duas canções que trazem um pouco essas minhas visões sobre o mundo. São sentimentos pessoais, mas que expressam minha preocupação com o que acontece com o mundo", contou.Ele definiu o Rio de Janeiro como "um lugar muito complicado", mas também excepcional. "A cidade é bonita, um dos lugares mais belos que já vi. Andamos no bondinho, fomos ao Pão de Açúcar. Sobrevoamos a Estátua do Cristo Redentor de helicóptero. É uma cidade de contrastes, grande pobreza e grande riqueza. Isso não é exclusivo do Rio, mas é maior o contraste aqui do que em outros lugares que conheci. Mas também não posso dizer muito mais, gastei mais tempo na praia", disse.Ele comentou também sobre sua versão do sucesso de Nina Simone, Feeling Good (composta em 1965 por Anthony Newley e Leslie Bricusse), que Bellamy costuma tocar sozinho, ao piano, nos shows do Muse. "É uma canção muito especial. É glamourosa, ao mesmo tempo que é sombria. Tem uma energia sombria. É uma das minhas canções preferidas", afirmou. "Ficou mais famosa na interpretação de Nina Simone, mas muita gente gravou também", ele pondera. Entre os que gravaram, estão Sammy Davis Jr., Eels, Michael Bublé, The Pussycat Dolls e George Michael.Com isso, quer dizer que Bellamy se anima também a gravar mais coisas do american songbook, como Rod Stewart? "Talvez um dia", ele brinca. "Por enquanto, estamos mais ocupados em explorar completamente algumas possibilidades da música, e isso implica gravar música original, nova. Mas também pode ser uma boa experiência recorrer à música já existente, embora eu prefira o período mais remoto do rock?n?roll, dos anos 50, 60 e até dos 80", afirmou.Bellamy desvendou o mistério que existe por trás do fato de um trio conseguir um som semelhante a uma big band no palco: eles não são só um trio. "Às vezes não se pode ver, mas nós temos músicos extras. Em geral, alguém para tocar teclados e sintetizadores. Quando nós gravamos discos em estúdio, geralmente usamos uma infinidade de instrumentos diferentes. Para conseguir essa mesma sonoridade no palco, muitas vezes recorremos a músicos adicionais", revelou.Há óbvio parentesco entre bandas inglesas como Muse, Coldplay e Keane, e não é só impressão. São bandas que armam suas tendas de truques e exploram com maestria a tradição do espetáculo sônico do britpop. O Muse é um dos shows visualmente mais bem cuidados do momento. Em entrevista ao tablóide britânico The Sun, Chris Martin, líder do Coldplay, falou sobre o show de seu novo disco, Viva La Vida, e disse que será um espetáculo de grande produção, mas não tão produzido quanto os do Muse."Nunca chegaremos ao extremo como o Muse. Vamos deixá-los fazer o maior show e depois pensar, ?Ok, como eles fizeram isso?? Sempre estivemos um passo atrás deles. Eles são tão bons ao vivo!", afirmou Martin, que se revela um nerd em termos de planejamento de som & luz em seus espetáculos.Os músicos de Muse e Coldplay são velhos conhecidos e admiradores mútuos e chegaram a fazer turnê conjunta no ano 2000. Segundo Chris Martin, sua canção Fix You, do álbum X&Y (2006), foi composta a partir da inspiração que lhe deu a música Megalomania, do Muse.A única dúvida que paira é sobre qual o formato do novo trabalho do Muse, que já é bastante aguardado pelos fãs. Eles estão querendo mudar a forma de trazer sua música ao mundo. "O que vem por aí é impossível de dizer", disse Matt Bellamy à NME, há alguns meses. "Pode ser um álbum, mas pode ser também uma seqüência de singles, ou pode ser também uma sinfonia de 50 minutos. Entende o que quero dizer? Quem sabe?"Do Brasil, o Muse volta à Europa e participa dos festivais de Marlay Park (em Dublin, Irlanda) e V Festival (em Chelmsford e Staffordshire, Inglaterra). ServiçoMuse. HSBC Brasil. Rua Bragança Paulista, 1.281, telefone 4003-1212. Hoje, às 22 h. Ingressos de R$ 140 a R$ 250

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