Musa atrasa, mas quem se lembra?

Princípio de vaia, visual kitsch, preços altos deixaram de ser problema assim que a ?megatudo? pisou no palco do estádio ontem

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

19 de dezembro de 2008 | 00h00

O primeiro dos três shows de Madonna no Morumbi, ontem à noite, não teve grandes surpresas, a não ser o atraso maior ainda do que na segunda apresentação no Maracanã. Os relógios marcavam 21h51 (o horário marcado nos ingressos era 20 horas) quando as luzes do estádio foram apagadas e milhares de flashes de câmeras digitais espocavam por todo o espaço. Havia 67 mil pessoas à espera da primadona, que chegou a ser vaiada timidamente algumas vezes. Até o coro de "piranha, piranha", com que os cariocas a "brindaram" na segunda-feira, pelo mesmo motivo, chegou a ecoar.Madonna chegou cedo ao estádio e fez passagem de som com a banda de parte do roteiro, cantando músicas como Heartbeat, Ray of Light, Borderline, Miles Away e Into the Groove, durante a qual até pulou corda, como no show. Como no Rio, nesse momento os fãs permaneciam do lado de fora do estádio, já que os portões ainda não haviam sido abertos.Nem se chovesse o show seria muito diferente dos dois que ela apresentou no Maracanã no domingo (em que estava visivelmente irritada por conta do aguaceiro) e na segunda (seca, sorridente, livre de problemas técnicos e muito mais inspirada). Rolou um boato que ela cancelaria o show de ontem se se concretizassem as nada animadoras previsões meteorológicas. Felizmente as nuvens negras voaram para longe do estádio. E o show foi tão bom quanto o segundo no Maracanã. Exceto pela repercussão do set do DJ inglês Paul Oakenfold que, repetindo o mesmo set das duas noites anteriores, acabou sendo "demitido" pelo público paulistano (leia ao lado).Como na segunda noite no Rio, no final apoteótico, em Give it to Me, ela novamente usou a camisa amarela da seleção com o número 10 e chegou ao "game over" com duas bandeiras brasileiras em cena. Como bônus, rolou de novo Holiday, disparada pela equipe de som depois que o palco se esvaziou. Entre os vários momentos em que Madonna alucinou o público teve um em que disse que foi muito bom ter estar de volta e prometeu não ficar mais tanto tempo sem fazer shows aqui.Os brasileiros provavelmente não verão tão cedo um espetáculo musical desse porte, com tanta parafernália tecnológica de som e imagem. Em estágio final da turnê Sticky & Sweet nestas noites paulistanas, Madonna encerra com brilho - em que pese todo o caráter kitsch das megaproduções como a dela e a de Kanye West no TIM Festival - uma temporada de corrida frenética ao encontro de grandes astros e bandas, com preços de ingressos exorbitantes. A expectativa dos fãs, como já se sabia, era do tamanho do megashow da megaestrela do pop. Integrantes mais afoitos de fãs-clubes montaram barracas para acampar na frente do estádio semanas antes da chegada de sua musa. Tudo para ficar colado na grade da área VIP, com ingressos a R$ 600, esgotados numa velocidade espantosa. Muitos penaram na fila para comprá-los na primeira hora, outros sofreram com o confuso e incompetente sistema de vendas online. Mas não há fã como o de Madonna. E em cada show um deles é "premiado" quando a cantora aponta alguém da área VIP para escolher uma música que não está no roteiro. No Rio, os contemplados se chamavam Fábio (que pediu Express Yourself no domingo) e Daniel (que optou por Dress You Up na segunda). Ontem foi a vez de Márcio (que ela entendeu "macho", em espanhol), que quis ouvir Like a Virgin. O estádio inteiro cantou em coro. Esse momento de interação foi o melhor dos três em terras brasileiras. No fim, Madonna, fazendo trocadilho com a letra da música, disse: "Thank you São Paulo, your heart is beating next to mine."Fora isso, o roteiro transcorreu normalmente como o programado. Madonna abre o show com Candy Shop e durante duas horas canta outras 8 das 12 faixas do álbum Hard Candy, lançado este ano. Destas, além da música de abertura, as que mais causam impacto no palco são Beat Goes on (em que contracena virtualmente com o rapper Kanye West e "passeia" de carro de luxo pela passarela), She?s Not Me (que ganha o reforço de uma montagem de imagens dela de várias fases), 4 Minutes (em que interage com Justin Timberlake, também virtualmente) e o final dançante com Give it 2 Me. Das mais lentas, as melhores são Miles Away, também do novo álbum, e You Must Love Me (da trilha do filme Evita), ambas apresentadas no bloco étnico, com os ciganos romenos. Já Devil Wouldn?t Recognize You, outra balada do CD novo, ela canta deitada sobre um piano de cauda, vestida de preto e encapuzada, dentro da estrutura cilíndrica que também serve de telão na passarela. É um dos momentos mais estranhos e sem graça do show. Outra passagem dispensável é o interlúdio de vídeo com Die Another Day, em que dois dançarinos simulam uma luta de boxe num ringue, enquanto ela sai para mais uma das várias trocas de figurinos. Como se não bastasse ser uma das canções mais medíocres gravadas por ela, a versão apresentada vem com o pitch acelerado, o que parece uma piada de mau gosto. No restante do show, porém, Madonna faz uma boa retrospectiva de parte de sua carreira com hits poderosos como Vogue, Into the Groove, Music (estas duas acompanhadas das imagens mais coloridas e impactantes) Like a Prayer. Aí é que o bicho pega. Ontem, até Ray of Light caiu bem melhor. Se eles funcionam bem em qualquer pistinha de festa, imagina o que é fazer 67 mil pessoas pularem num estádio, como foi ontem no Morumbi. É vitória garantida. Fora OakenfoldO DJ Paul Oakenfold devia aproveitar os momentos de folga hoje e amanhã para trabalhar um pouco. Foi no mínimo vergonhosa sua atuação na abertura do show de ontem, repetindo quase o mesmo set de sábado e domingo no Rio. Ventava e fazia certo frio no Morumbi e ele até conseguiu dar uma esquentada na pista no início. Mas, ao contrário dos cariocas, os paulistanos, que teorica e praticamente são bem mais inteirados de música eletrônica, aos poucos foram se aborrecendo com seu set previsível e de gosto duvidoso. Entre as várias músicas que ele repetiu estava Sweet Dreams, da extinta Eurythmics (de quem Madonna emprestou Here Comes the Rain Again para um dos interlúdios de vídeo), e talvez tocaria mais velharias como Born Slippery, do Underworld não lhe tivesse dado as contas. Foi quando inventou de tocar uma baba do Zombie Nation. A platéia da areia começou a vaiar e a assobiar, além de fazer gestos obscenos com o dedo indicador e acenos de despedida. "Esse aí deve ter trazido um CD gravado com o set pronto", alguém comentou. "Bem que o CD podia pular." Oakenfold não ouviu os comentários, mas entendeu o recado. Interrompeu uma música no meio, desacelerando e dando um fade-out. Saiu sob muitos aplausos, não por sua atuação, mas por ter deixado o palco, enquanto a massa gritava "Madonna, Madonna." Mais uma que tocasse e ia ser um desastre histórico. A galera que lotava a área VIP não perdoava nada. Uma sósia de Adriane Galisteu que fosse virava alvo de piadas venenosas. Até por isso não dava pra perdoar a cafonice dos dois gigantescos panôs (ainda se usa essa expressão?) com dois M decorados com aqueles penduricalhos de lustres. Disse alguém: "Onde foi que ela comprou isso? Na 25 de Março?" Como já disse Rita Lee, estréia de show no Rio é uma festa. Todos os famosos globais aparecem. Domingo no Maracanã foi um festival de flashes e gritos provocados pela presença de atores como Miguel Falabella, Fernanda Montenegro, Lilia Cabral, Bruno Gagliasso, Luana Piovani, Maitê Proença, Renata Sorrah, entre outros. "Em São Paulo é só a Hebe e o Supla", cunhou Rita. Mas nem eles foram vistos na frente do palco ontem. L.L.G.

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