Murakami, o ocidental assumido

Ele cresceu ouvindo os Beatles e faz de seu novo livro, Kafka à Beira-Mar, uma reflexão sobre Édipo

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2008 | 00h00

São duas histórias paralelas, contadas com elementos fantásticos. Em uma, um adolescente inventa para si o pseudônimo Kafka Tamura e assim nomeado foge da casa onde vive com o pai, ao completar 15 anos. Seu destino é encontrar a mãe e a irmã mais velha. Em outra narrativa, Satoru Nakata é um homem de 60 anos que, tratado como deficiente mental, tem a habilidade de falar com gatos - tal virtude foi desenvolvida depois de um estranho acidente na infância.As histórias de Tamura e Nakata correm separadas até convergirem no final de Kafka à Beira-Mar, romance lançado agora pela Alfaguara (tradução de Leiko Gotoda, 572 págs., R$ 54,90) que reforçou a fama do escritor japonês Haruki Murakami não apenas em sua língua como em outros 34 idiomas, que admiram sua prosa ora tachada de ''pós-modernista'', ora criticada como ''ocidentalizada'' demais.Murakami é, na verdade, um caso especialíssimo na atual literatura japonesa. Em 1979, lançou seu primeiro romance, Ouça o Vento Cantar, cujo estilo fragmentado foi muito elogiado - os detratores, ao contrário, classificaram-no como um pastiche de Kurt Vonnegut.Seu estouro, no entanto, só aconteceu em 1987, quando publicou Norwegian Wood (lançado pela Objetiva) e divulgou as ferramentas que o tornariam famoso desde então: o fascínio pela cultura ocidental (especialmente a americana) e a curiosa sensibilidade retrô que dominava o Japão daquele momento.No livro, cujo título deriva diretamente dos Beatles, o sentimentalismo de Murakami o leva a fazer simpáticas referências aos Beach Boys, assim como lembra as canções que foram sucesso na música popular americana dos anos 1960. Lançada numa década em que o Japão vivia a contradição de se destacar como país industrializado ao mesmo tempo em que cultuava o passado, a obra alçou o nome de Murakami, cuja influência se espalhou pelo cinema, histórias em quadrinhos, música e até o design de locais como restaurantes.Com Kafka à Beira-Mar, o escritor deu um passo mais ousado. Novamente inspirando o título a uma canção, Murakami recheou a história com uma série de enigmas que motivou seus leitores - no curto período de três meses, o site oficial do livro foi inundado por mais de 8 mil perguntas. Lá, Murakami conta que respondeu pessoalmente a cerca de 1.200 delas. ''A conclusão a que cheguei por meio dessa troca foi a de que a chave para o entendimento está em ler o romance várias vezes'', comenta ele, em entrevista disponível no site. ''Kafka à Beira-Mar contém muitos enigmas, mas não há respostas prontas. Pelo contrário, muitos desses enigmas se interconectam, e nessa interação a possibilidade de uma solução vai tomando forma.''O escritor japonês reconhece também uma proximidade da história de Kafka Tamura com o mito de Édipo - o adolescente, quando mais jovem, ouviu uma terrível previsão paterna: ''Um dia você irá matar seu pai e dormir com sua mãe.'' É para evitar que tal profecia se concretize que Tamura foge em busca da mãe, que abandonou o lar anos antes sem nenhuma explicação. ''Há, de fato, uma conexão com Édipo, mas, ao que me lembre, eu não tinha o mito em mente ao escrever'', observa. ''Mitos são os protótipos de todas as histórias. São como reservatórios que contêm todas as histórias possíveis.''Já Satoru Nakata também passa por uma provação quando jovem: durante um passeio com outros 15 colegas de escola, todos misteriosamente ficam desacordados durante algumas horas. Apenas Nakata demora demais para voltar a si. Como foi durante o final da 2ª Guerra, creditou-se inicialmente o incidente a um gás criado pelos americanos.Se os demais garotos recuperam-se rapidamente do incidente, Nakata torna-se diferente dos outros, desenvolvendo estranhos dons, como o poder de comunicação com gatos. ''Sempre me interesso por pessoas que se põem à margem da sociedade, que se retiram dela'', explica Murakami. ''A maioria das pessoas em Kafka à Beira-Mar está, de uma forma ou de outra, marginalizada.''A citação do escritor checo, além de revelar sua paixão pela obra kafkiana, também traz embutida um desejo: o de desmontar, à sua moda, o mundo ficcional de Kafka, o qual, por sua vez, desmontou o sistema então existente do romance. Com isso, reforçou a fama de ''pós-modernista'', que sempre o incomodou. ''Não tenho interesse em qualquer ''ismo'''', disse ele ao Estado, em 2001, quando do lançamento de Caçando Carneiros (Estação Liberdade). ''Não estou interessado em escrever um livro puramente ''realista''. Isso me aborrece.''

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