Mulher de bandido, mulher de todos, o mito Helena Ignez

CineSesc homenageia a atriz que foi musa de Glauber e Sganzerla, ligando-se à vanguarda da produção brasileira

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

15 de julho de 2008 | 00h00

Ela foi um assombro, a jovem Helena Ignez. Glamour Girl da Bahia e candidata a Miss Bahia, era linda, com certeza. Sua inquietação levou-a a fazer teatro e cinema. Casou-se com Glauber Rocha, com quem teve a filha Paloma, estrelou o curta O Pátio. E há uma versão segundo a qual era Glauber, o marido, quem redigia as notas da coluna social que Helena, sob o pseudônimo de Krista, publicava no Diário de Notícias de Salvador.Helena Ignez casou-se depois com Rogério Sganzerla, com quem teve outra filha, Djin, também atriz. Com Júlio Bressane e ele, fundou a Bel-Air, uma produtora de filmes experimentais que teve curta duração, mas deixou sua marca no cinema brasileiro dos anos 70. O CineSesc abriga esta semana uma retrospectiva dedicada a Helena. Chama-se A Mulher do Bandido, pegando carona no fato de que ela estrelou - seu primeiro filme com Sganzerla - O Bandido da Luz Vermelha. Mas o filme de abertura - ontem, para convidados - foi A Mulher de Todos, o segundo com Sganzerla.Em Paulínia, durante o festival encerrado no domingo, Rubens Ewald Filho, participando de um encontro da crítica com estudantes da Escola Magia do Cinema, lembrou uma história do fim dos anos 60. Ele era um jovem crítico no Jornal da Tarde e o que escreveu sobre A Mulher de Todos desagradou tanto ao diretor que Ewald Filho foi agredido por ele. O caso foi para a capa do jornal. Houve réplica e tréplica. Hoje, tudo isso é passado - Ewald Filho e Sganzerla reconciliaram-se - e o filme pede revisão. Depois da Janete Jane do Bandido, a Ângela Carne e Osso de A Mulher de Todos, sempre com seu charuto na boca, não apenas sacramentou a investigação de linguagem de Sganzerla como estabeleceu o mito da ex-glamour girl como musa do udigrúdi.Musa, ela já havia sido do cinema baiano, já que, depois de O Pátio, interpretou também A Grande Feira, de Roberto Pires. No Rio, com Roberto Farias, fez O Assalto ao Trem Pagador, no papel da mulher de Reginaldo Faria, o Grilo, que representava o mundo do asfalto, em oposição ao morro, personificado por Tião Medonho (Eliezer Gomes). O Assalto não era um filme do Cinema Novo, mas seu sucesso de público tornou oportuno agregá-lo ao movimento, para sugerir que dialogava com as massas. Helena fez um clássico de Minas - O Padre e a Moça, que Joaquim Pedro de Andrade adaptou do poema de Drummond, com magnífica fotografia de Mário Carneiro. O negro amor de rendas brancas era vivido por Paulo José e ela.Grandes filmes, e além de todos esses podem ser citados, porque também serão exibidos, os que ela fez com Bressane (Cara a Cara, Barão Olavo, o Horrível, Cuidado Madame e São Jerônimo), Elyseu Visconti (Os Monstros de Babaloo), Olney São Paulo (O Grito da Terra) e os restantes com Sganzerla (Copacabana Mon Amour, Sem Essa, Aranha, Nem Tudo É Verdade, O Signo do Kaos). E existem os curtas - O Pátio, naturalmente; Almas Passantes, de Ilana Feldman e Cléber Eduardo; Helena Zero, de Joel Pizzini; Elogio da Luz, de Pizzini e Paloma Duarte; mais os curtas e médias que a própria Helena assinou, obras como A Miss e o Dinossauro e Reinvenção da Rua.Helena foi - e é -, vivíssima nos seus 67 anos (nasceu em 1941), a mulher de todos, todos os formatos, todas as mídias, todas as bitolas (do super-8 ao 35 mm), todas as estéticas (da comercial à vanguarda), todos os autores, de diferentes regiões do Brasil. Uma atriz que criou uma persona e, por si só, encarna uma história do cinema brasileiro. Nem tudo o que fez foi brilhante - no teatro, foi ''engolida'' pela trágica Glauce Rocha, quando ambas fizeram Electra -, mas poucos artistas ousaram tanto. E Helena, no atual debate de Manoel Carlos com os atores, que acha que eles não têm muito o que dizer, pode ser considerada uma saudável exceção (embora não seja a única).Esta mulher múltipla se revelou, de repente, de um só. Helena e Sganzerla ficaram juntos desde os anos 60 até a morte dele, em janeiro de 2004. Tiveram filhos, fizeram filmes, compartilharam sonhos, o exílio. Em outubro de 2003, ela subiu ao palco do Cine Odeon para receber a homenagem do Festival do Rio ao marido. O prêmio honorário lhe foi entregue por Ivan Cardoso, ele próprio investigador da linguagem, transcodificador - que busca fazer a ponte entre o erudito e o popular no cinema - e tiete assumido de Bressane e Sganzerla. Cardoso fez um discurso comovido, dizendo que Sganzerla, como criador, havia superado seu mestre Orson Welles e, como homem, dava (na época, estava nas últimas) uma lição de vida ao enfrentar a adversidade da doença. Helena foi sintética. ''Eu amo este homem.'' A retrospectiva que a homenageia não deixa de resgatar também seu amor por Rogério.Serviço A Mulher do Bandido. Hoje, 15 h, A Grande Feira; 17 h, O Padre e a Moça; 19 h, Cara a Cara; 21 h, O Bandido da Luz Vermelha. Cinesesc (329 lug.). Rua Augusta, 2.075, 3087-0500. Grátis (retirar ingressos 1 h antes). Até 17/7

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