Muito prazer, eu sou o Vinicius de Moraes

Com obras inéditas, Poemas Esparsos revela faces menos óbvias do poetinha

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

04 de dezembro de 2008 | 00h00

Em Poemas Esparsos, um poeta estende a mão ao leitor, apresentando-se assim: "Muito prazer, eu sou o Vinicius de Moraes." Mas Vinicius de Moraes não é o poetinha, o letrista revolucionário da bossa nova, o responsável pela renovação do soneto, ao ensinar uma gramática sentimental aos brasileiros, em que a complexidade dos afetos se tornava clara e simples? Ele é isso, mas isso não é tudo. "Vinicius é um caso curioso, é o único poeta brasileiro que trata do grotesco no século 20, tema pouco explorado na nossa poesia", diz Eucanaã de Ferraz, organizador de Poemas Esparsos (Companhia da Letras, 242 págs., R$ 42).   Leia trechos de poemasCom lançamento no Rio (hoje, às 19h30, no Instituto Moreira Sales, tel. 21-3284-7400) e em São Paulo (amanhã, às 19h30, no Sesc Paulista, tel. 3179-3700), Poemas Esparsos reúne trabalhos inéditos em livro (19), recolhidos em edições póstumas (36) e restritos ao Antologia Poética (14), livro de 1954. Entre os inéditos estão Sob o Trópico do Câncer, Dobrado de Mestres-Cucas e Ode ao Octontenário de Manuel Bandeira - mais uma vez fica clara a influência bandeiriana.A seleção, que vai dos anos 30 aos 70, apresenta faces menos óbvias do poeta, como a surrealista e a experimental. E apresenta um caderno de imagens pouco conhecidas de Vinicius, com reprodução de poemas - manuscritos e datilografados -, como O Haver, A Ponte de Van Gogh e Retrato de Carlos Drummond de Andrade. Eucanaã incluiu, na seção Arquivos, textos de Fernando Sabino, Drummond, Ferreira Gullar e Caetano Veloso sobre o poeta."O Vinicius é mesmo um romântico, mas o senso comum o associa somente ao amor, a um lirismo confortável e doce, para tirar essa noção do coitado vai ser mesmo uma trabalheira", diz Eucanaã, que assina o posfácio - Simples, Invulgar -, no qual detalha os critérios e dificuldades da organização. O acervo do poeta na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio, foi precioso para Eucanaã cotejar manuscritos com as edições das obras, que reproduzem erros aqui e ali. O organizador acredita que, ao se explorarem esses elementos menos visíveis, Vinicius se torna um dos autores que mais têm a oferecer à poesia contemporânea. "Talvez só Carlos Drummond de Andrade rivalize com ele", diz.Outra ênfase é dada aos poemas de circunstância, como Alexandra, A Caçadora, pouco valorizados pela crença de que a poesia deve tratar de temas elevados e atemporais. O que é escrito como brincadeira pode ser, na verdade, uma oficina experimental do poeta, que se revela um homem simples. "Acima de tudo, Vinicius era um criador, ele queimava experiências." Segundo Eucanaã, Vinicius conciliou formas tradicionais e renovadas sem torná-las antagônicas. As escolhas estéticas eram algo menor diante da expressão dos dramas do poeta e do seu tempo - a vida se dava por meio da poesia, um exercício que significa libertação, o contrário da quietude e da imobilidade.

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