Muito mais poesia em Alegría

Segundo espetáculo do Cirque du Soleil a passar pelo País já encanta curitibanos

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2022 | 00h00

Preste atenção no anjo negro, cabisbaixo, que transita disfarçadamente pelo palco enquanto as duas contorcionistas mongóis se apresentam magistralmente numa plataforma giratória mais à frente. Ele se apóia em uma única perna-de-pau e utiliza duas muletas bem altas para se deslocar, acessórios que se tornam praticamente invisíveis na escuridão projetada do fundo da tenda. Parece dar o seu último rasante para se despedir desse mundo. Com os olhos fisgados pelos movimentos que julgaríamos humanamente impossíveis da contorção espelhada da dupla, poucos percebem o momento exato em que o anjo desaparece. Outros, na verdade, não chegam nem a notar a sua presença.Alegría, o segundo espetáculo do Cirque du Soleil a passar pelo Brasil (em São Paulo a tenda será montada no Parque Villa-Lobos e tem estréia prevista para 7 de fevereiro), mergulha nessa atmosfera poética e cheia de fantasia, sem deixar de lado, é claro, os números de tirarem o fôlego de qualquer reles mortal. O garoto russo Nikita Moiseev, de 11 anos, é quem dá as boas-vindas num português quase sem sotaque. No ensaio geral, ocorrido na quinta-feira da semana passada na capital paranaense, um dia antes da estréia nacional, a trupe se espantou com os gritos vindos da platéia assim que o velho cicerone aristocrático Fleur anuncia que o espetáculo está para começar: Alegría! ''''Os artistas só falavam sobre essa reação espontânea dos brasileiros, que não vimos em nenhum outro lugar do mundo. Nos sentimos num show de rock!'''', conta a simpática diretora artística do espetáculo, Sylvie Galarneau.Ela é a responsável por trazer novas idéias a fim de ''''refrescar'''' constantemente o segundo show mais antigo do Cirque du Soleil, depois de Saltimbanco, que passou por aqui no ano passado. Alegría foi montado em 1994 para a comemoração dos 10 anos do circo canadense, fundado por Guy Laliberté. ''''Acrescentamos detalhes todos os dias, nenhum show é igual ao outro'''', conta Sylvie. E deixa escapar que o brasileiro Marcos de Oliveira Casuo, que faz o público cair na gargalhada na pele de um palhaço divertido por ser ingênuo, é extremamente criativo e está sempre querendo inovar em seus truques. ''''É difícil controlá-lo'''', brinca, aos risos.Casuo é o palhaço que ostenta um imenso topete amarelo na frente, veste um roupão lilás e tem um burrinho de estimação. Entra sempre nos intervalos dos números, ora sozinho, ora com seu parceiro espanhol Pablo Gomiz Lopez. Prepare-se, pois dessa vez é esta dupla quem escolherá um felizardo da platéia para fazer uma participação pra lá de especial.A dica para quem ainda não adquiriu o seu ingresso é reservar um lugar nem tão perto do palco: Alegría conta com muitos números aéreos, que só ganham a devida dimensão quando vistos de longe. Dos nove atos, cinco ocorrem pelos ares, entre eles Trapeze Solo, Power Track, composto por duas esteiras elásticas que cruzam entre si e servem de base para saltos mortais dos artistas-ginastas; e Aerial High Bar, onde sete trapezistas balançam-se em três barras colocadas lá no alto da tenda, amparados por uma rede elástica. Destaque para a russa Maria Silaeva no número de Manipulação, que faz rodar até seis bambolês, sendo um na ponta do pé.Agora, para quem desejar observar os detalhes dos figurinos, muito mais ricos do que os do Saltimbanco, escolher um lugar mais à frente é providencial. A trilha, executada ao vivo, é comandada por duas singelas e potentes cantoras, a Branca e a Negra. E a presença dos Velhos Pássaros Nostálgicos, que mostram que o velho e o novo podem caminhar juntos, nos faz acreditar, por um instante, que muita Alegría ainda pode ser oferecida pelo mundo.

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