Muito além do estranho mundo de Zé do Caixão

Mostra exibe o inédito A Praga e traz sessões especiais de filmes eróticos, westerns e até melodramas do cineasta maldito

Flávia Guerra, O Estadao de S.Paulo

09 de novembro de 2007 | 00h00

Tarde de quarta no centro de São Paulo. Embaixo do Viaduto Amaral Gurgel, a cena já mais que familiar aos paulistanos que se espremem no trânsito da cidade: mendigos e malditos se arrastam pelos frestas da metrópole. Um senhor de pouco mais de 70 anos filmava a cena e dirigia uma pequena equipe. Em vez de se tratar de mais uma reportagem sobre as mazelas sociais do País, o senhor era José Mojica Marins, mais conhecido como Zé do Caixão. Em vez dos mendigos, figurantes transbordavam o lado maldito da cidade. A filmagem nada mais era que a vinheta de abertura da mostra que homenageia o mais maldito dos cineastas brasileiros. José Mojica Marins - Retrospectiva da Obra será aberta hoje para convidados na Cinemateca Brasileira e segue até dia 25 no Centro Cultural Banco do Brasil. ''''50 anos por assim dizer. Comecei há filmar mesmo há quase 60. Mas, o número oficial é bonito e a homenagem é mais que bem-vinda'''', disse o distinto senhor do alto de seu vigor criativo.Não bastasse uma mostra com mais de 40 filmes (25 destes serão exibi dos em cópia película restaurada), fruto do trabalho da Heco Produções em parceria com a Cinemateca e a Labo Cine, ainda há o lançamento de um livro, duas palestras, uma exposição fotográfica e uma sessão especial. Especial é eufemismo. A Praga é a cereja do bolo desta mostra que traz à tona um verdadeiro acervo arqueológico da obra do mestre do terror brasileiro. O longa inédito será exibido hoje na cinemateca, mas tem sessão para o público amanhã, às 19 h, no CCBB; e volta à Cinemateca no dia 17, à meia-noite. A Praga é mais um dos casos fantásticos que permeiam a vida de Mojica. Filmado em película Super 8 em 1980, ficou perdido até 2001, quando o cineasta e curador da mostra Eugênio Puppo, da Heco, que então organizava a Mostra Cinema Marginal, descobriu que a obra ainda existia. ''''Mojica me mostrou o que restava do filme, que nunca tinha sido finalizado. E encontramos uns pedaços em sacos de lixo. Ele tinha filmado sem som direto. Estava tudo incompleto, faltando negativos'''', conta Puppo, que decidiu arregaçar as mangas e, num trabalho de arqueologia do cinema, buscar os negativos, filmar cenas que faltavam e recuperar os diálogos, já que o roteiro ''''no papel'''' tão pouco existia. ''''Chamamos uma deficiente auditiva para fazer a leitura labial do filme. Depois, atores dublaram as vozes dos protagonistas'''', conta Puppo.O trabalho de Puppo e equipe é de ourives. Além de restaurar, filmaram em Super 8 cenas complementares ao original, cuidaram da telecinagem, mixagem de som, entre tantas outras benfeitorias para, finalmente, contar a história de um casal que tira distraidamente fotos do jardim da casa de uma velha senhora sem saber que ela é, na verdade, uma bruxa. Como em toda boa trama de Zé do Caixão, a bruxa roga uma praga sobre Juvenal, que nunca mais consegue dormir em paz e adquire uma estranha doença. Um verdadeiro Frankenstein cinematográfico.A cópia exibida na mostra ainda não é a final. O filme será passado para a cópia em película e deve estrear em 2008. Isso só depois de chegar aos cinema outro filme inédito de Mojica, Encarnação do Demônio, filmado neste ano e em fase de finalização. ''''Foi uma loucura. O primeiro filme que dirigi com dinheiro. Mas não deixei de trabalhar da forma artesanal de sempre. A equipe sofreu sim para se adaptar. Perdemos o Jece Valadão, que morreu no meio das filmagens, tivemos todo um trabalho absurdo para não machucar os animais que usei no filme. Uma moça que saía da barriga de um porco, uma outra estuprada por um rato. Outra devorada por baratas. Pense no trabalho, minha filha'''', conta o mestre Mojica.''''Mas valeu a pena. É meu melhor filme. E esta mostra, que tem tanta coisa para ver e falar, é um presente especial.'''' Parar? Nem pensar. Em duas semanas ele volta ao set. Desta vez para filmar um curta que há anos lhe vem tirando, literalmente, o sono. ''''Vai se chamar A Feiticeira e contar uma história que de fato me aconteceu.''''Serviço José Mojica Marins - Retrospectiva da Obra. Até 25/11. Abertura hoje, na Cinemateca, para convidados Centro Cultural Banco do Brasil. R. Álvares Penteado, 112, Centro, 3113-3651. 3.ª a dom. R$ 4. Até 25/11Cinemateca. Lgo. Sen. Raul Cardoso, 207, 3512-6111. 3.ª a dom. R$ 8

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