Movimento calmo de transformações

O artista Thiago Rocha Pitta exibe suas novas criações[br]em que constrói a poética usando elementos primordiais

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

05 de dezembro de 2008 | 00h00

O vocabulário simbólico do artista Thiago Rocha Pitta é de elementos fundamentais da natureza, como fogo, ar, água, sal, as transformações dos estados da matéria. "Todos eles têm um sentido já muito vasto, mas dá para fazer bastante com pouco", diz o artista, que realiza agora na Galeria Millan a exposição Calmaria. Tendo sua formação como pintor, Thiago Rocha Pitta, de 28 anos e um dos jovens criadores de destaque na atual cena contemporânea, recusa qualquer discussão de gêneros artísticos em sua obra, reforçando que "o interessante é o discurso poético". Sua atual mostra é bem sintética em termos de trabalhos, faz-se apenas com a obra Calmaria, uma grande tela que é apenas tecido, pendendo do teto superior da galeria e chegando até o chão de sua sala principal - com cristais de sal e recebendo água de uma calha, o trabalho vai se transformando com a umidade ao longo do tempo; uma caixa de vidro que refaz essa criação tendo como suporte papel queimado; e o vídeo Prototide, em outro espaço da Millan, no piso de cima.Com 14 minutos de duração, Prototide é um vídeo enigmático e coloca em ação elementos contrários: o fogo e a água. Já à noite, numa atmosfera escura, a obra acompanha o processo calmo de encontro do mar (maré baixa) com uma massa formada por carvão em brasa. É um movimento lento, em que os dois materiais vão se misturando, em que a brasa vai se apagando e deixando apenas fumaça no ar - mas nessa obra vemos que o contraditório não está "numa relação de oposição", como bem diz o artista. "O início da idéia para esse trabalho foi pensar na pangéia, o começo do mundo pelo movimento das placas tectônicas", conta Rocha Pitta. Como o vídeo está exibido em looping - isso quer dizer que ele termina e já começa novamente -, não há corte, mas a extensão de limites e da noção de tempo (do arcaico ao contemporâneo). O começo do mundo pode também parecer o fim do mundo (e uma lembrança possível é do poema de Hilda Hilst em que, ao se fazer a pergunta de quem é o desejo, ela diz ser ele "lava/ Depois pó/ Depois nada").Uma relação entre criação e processo de transformação se faz sempre presente nas obras de Thiago Rocha Pitta. Depois de ver o vídeo Prototide, no piso superior da galeria, já é possível ver, lá em cima mesmo, uma parte do grande tecido que vai até o pavimento inferior, a obra Calmaria. Com esse trabalho, o artista coloca e explicita no espaço da galeria o processo de transformação delicada da umidade com uma área ou espécie de nuvem de cristais de sal - "o sal é a pedra que se dilui com água" -, criando o desenho sobre a tela. "É e não é pintura", diz o artista, que também "assou" algumas áreas do linho para, de alguma maneira, contribuir na criação de uma imagem - ela é, sim, imagem e não apenas processo, podendo até mesmo remeter a uma paisagem, "algo desértico". Uma das características instigantes dos trabalhos desse artista é o limite tênue entre o artificial e o natural. "Não existe truque, não existe simulação e, assim, podemos até falar em natureza das coisas", afirma Thiago. ServiçoThiago Rocha Pitta. Galeria Millan. Rua Fradique Coutinho, 1.360, tel. 3031-6007. 10h/19h (sáb., 11h/17h; fecha dom.). Grátis. Até 20/12

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