Mostruários

Enquanto o mundo se maravilhava com a festa de abertura das Olimpíadas de Pequim, a Rússia invadia a Geórgia. Fogos de artifício de um lado, fogo de verdade do outro, e no mesmo dia. Há uma metáfora nessa coincidência, em algum lugar.Durante muitos anos China e Rússia, ou União Soviética e seus satélites, foram o oposto em tudo ao mundo capitalista - ou, na linguagem da Guerra Fria, ao Mundo Livre. Eram, cada uma a seu modo, mostruários do comunismo no poder como alternativas para o capitalismo. O comunismo acabou na União Soviética junto com a União Soviética e continuou no poder na China em tudo menos na direção da economia, desmentindo algumas pilhas de tomos teóricos. As alternativas perderam.Nem União Soviética nem China souberam ser bons mostruários quando eram ortodoxamente comunistas. A Alemanha foi um exemplo de fracasso na guerra da propaganda entre comunismo e capitalismo. Por mais que se exaltasse a superioridade do lado comunista em matéria de educação universal e saúde comunitária, bastava uma visita a Berlim Oriental para você se convencer que aquela tristeza - ainda mais em contraste com a exuberância luminosa de Berlim Ocidental - não tinha futuro. Os feitos da revolução maoísta, arrancando a sociedade chinesa do seu passado feudal numa geração, não escondiam o custo disso em sangue, e a impressão que se tinha da China antes da abertura para o consumismo era a de caos permanente. Nada muito atraente.Pode-se discutir o que o fantástico espetáculo da abertura das Olimpíadas representava: uma sociedade que finalmente redimia, na capacidade de nos deslumbrar com a sua técnica e inventividade, o sacrifício dos anos terríveis, ou uma sociedade festejando sua nova competência no mundo do marquetchim e do espetáculo, muito melhor do que qualquer ocidental? Uma apoteose do maoísmo, já que só com anos de arregimentação e autoritarismo se consegue uma organização coletiva assim, ou uma apoteose da abertura? Nunca se viu um mostruário igual. Só resta saber do quê.Enquanto isto, a Rússia só mostrava uma truculência datada e, independentemente de ter ou não ter razão, recorria à nostalgia armada contra a Geórgia.

O Estadao de S.Paulo

14 de agosto de 2008 | 00h00

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