Mostras examinam antevisão de Siza

Projeto do arquiteto português para abrigar a Coleção Iberê Camargo é objeto de extensa programação em SP e Porto Alegre

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

16 de outubro de 2008 | 00h00

Os tendões fraturados de algum monstro calcificado. É assim que o britânico Kenneth Frampton, um dos principais críticos e historiadores da arquitetura internacional, professor da Columbia University, define o edifício-sede da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, um dos mais festejados do arquiteto português Álvaro Siza, prêmio Pritzker de arquitetura em 1992.Apesar da definição estranha, não interpetem mal. Frampton não está falando cobras e lagartos do projeto. Ele o adora. "O que coloca o trabalho de Siza numa classe à parte é o fato de que, em quase tudo que faz, há a evocação imediata de um microcosmo que assume uma dimensão mítica desde o primeiro esboço até o resultado final."Do primeiro esboço até o resultado final. É justamente esse amplo espectro que o apreciador da boa arquitetura poderá examinar hoje em São Paulo e Porto Alegre. Uma exposição que se abre no Instituto Tomie Ohtake, Álvaro Siza: Modern Redux, e o lançamento do livro Fundação Iberê Camargo - Álvaro Siza, de Flávio Kiefer, condensam análises e interpretações dessa obra que já está sendo considerada chave no trabalho do português."Estamos diante de uma obra com grande teor pedagógico, que ainda tem muito a ensinar e a dizer sobre como proteger e valorizar o acervo de um grande artista utilizando os mais avançados recursos técnicos", escreve Flávio Kiefer, que participa amanhã de mesa-redonda no instituto paulistano. "Vivemos à mercê de fortuitas e esporádicas realizações mágicas, como o foram as da construção do Masp, da arquiteta Lina Bo Bardi, e do MAM do Rio, de Affonso Eduardo Reidy."Erguido numa antiga pedreira, junto à orla do Rio Guaíba, na capital gaúcha, o prédio de Álvaro Siza já pode estar funcionando, na opinião do arquiteto Flávio Kiefer, como um vetor de recuperação urbana de uma região um pouco relegada da cidade."O museu que eu fiz tem um ponto de partida, é feito para abrigar a coleção Iberê Camargo. O que digo é que um museu não pode se destinar a um resultado, porque nem sempre os resultados serão dos melhores. A obra de Iberê não será sempre exposta da mesma maneira, será mostrada de diversos modos. O museu é uma coisa viva, tem na sua origem a coleção de Iberê e a intenção de apresentá-la na sua universalidade", disse Álvaro Siza, que participaria ontem de uma videoconferência desde Lisboa para discutir aspectos do projeto.Segundo o arquiteto Roberto Segre, longe de se configurar como um "templo clássico e hermético" destinado a proteger "tesouros artísticos", imagem clássica do museu, o trabalho ratifica a idéia de que Siza pertence a um grupo de arquitetos herdeiros do movimento moderno "que se libertaram da rigidez compositiva racionalista e conservaram uma linguagem baseada na geometria abstrata", que condensa expressões líricas pessoais, necessidades funcionais e lógica estrutural."A arquitetura é transformadora, mais ou menos de acordo com seu papel na sociedade. Ela adquire uma importância específica na vida urbana, formando como que um tecido no qual se desenvolve a vida urbana, com as escolas, os museus. O protagonismo da arquitetura tem a ver com o seu real desempenho na vida urbana", explica Siza. TrechoSeria possível dizer que o passeio que decorre dessa circulação engenhosa é comparável à experiência de escalar por entre os muros de um castelo medieval, onde a pessoa constantemente oscila entre a vastidão do espaço interno e a claustrofobia da escada intramuros. Aqui, como num castelo, não há alívio para a ascensão estreita e fechada, a não ser pela janela oblonga ocasional e pelas zenitais circulares embutidas no teto ao meio da rampa ou pairando sobre os patamares trapezoidais, onde as rampas viram de volta para dentro do corpo do prédio. Comparáveis nas suas dimensões transversais à largura de uma típica rampa telescópica de desembarque de aeroporto, as rampas também dificilmente podem servir como espaços para descanso. Apesar de toda essa plasticidade extravagante, o prédio harmoniza-se apropriadamente com a exposição das pinturas de Camargo. Como em todos os projetos de Siza, o local constitui o ponto de partida primordial no desenvolvimento do parti. Isso não explica apenas a forma na qual a massa principal é colocada contra um paredão de rocha arborizado ao sul, mas também a base sobre a qual o complexo inteiro repousa, assim com os três adendos irregulares, de dois andares, que se elevam a partir do pódio de um só andar. (...)É típico de Siza que, não importa o quão plasticamente inflectida possa ser uma forma espacial, os móveis e a fenestração de madeira sejam proporcionados e detalhados de acordo com a lingua franca do escritório, quer dizer, executados numa sintaxe que assegure a intimidade modesta do espaço interno. (...)Esse tour de force em precisa acomodação funcional reintegra brilhantemente a imaginação barroca, pós-moderna de Siza, na tradição duradoura do projeto moderno no qual ele nunca perdeu a sua fé.KENNETH FRAMPTON, CRÍTICO DE ARQUITETURA E PROFESSOR DA COLUMBIA UNIVERSITYServiçoÁlvaro Siza: Modern Redux. Instituto Tomie Ohtake. Av. Faria Lima, 201, 2245-1900. 3.ª a dom., 11/20 h. Grátis. Até 23/11. Hoje, 19 h, lançamento do livro Fundação Iberê Camargo - Álvaro Siza

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