Galeria Nara Roeslere
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Mostra virtual celebra centenário de León Ferrari

Galeria Nara Roesler presta homenagem ao artista argentino, que morou em São Paulo de 1976 a 1991

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2020 | 05h00

O ano de 1964 foi marcado não apenas pelo fatídico golpe militar que confiscou a liberdade de artistas e intelectuais no Brasil. Coincidência ou não, o ano registrou também uma mudança de rota na obra do artista argentino León Ferrari (1920-2013), ele mesmo perseguido pela ditadura de seu país na época, a ponto de buscar refúgio no Brasil. Ferrari estaria completando 100 anos em setembro, justo motivo para a abertura de uma exposição virtual, hoje, em homenagem ao centenário de seu nascimento (https://nararoesler.art/exhibitions). Iniciativa da Galeria Nara Roesler, que representa o artista, a exposição conta com três dezenas de obras de vários períodos e tem como curador o venezuelano Luis Pérez-Oramas, conhecido por ter organizado uma histórica Bienal de São Paulo, a trigésima edição, em 2012.

Grande conhecedor de arte latina – ele comandou a área no Museu de Arte Moderna de Nova York e hoje é assessor da Galeria Nara Roesler, que tem filial na cidade americana –, Pérez-Oramas foi o curador da exposição Tangled Alphabets no MoMA, que reuniu, em 2009, obras de León Ferrari e da artista brasileira de origem suíça Mira Schendel. Os dois criaram alguns de seus melhores trabalhos no Brasil. Ferrari se exilou em São Paulo em 1976 e por aqui ficou até 1991. Para Pérez-Oramas, sua passagem pela cidade foi fundamental para a definição do rumo de sua obra derradeira, tanto como os anos 1960 foram cruciais para o desenvolvimento de sua linguagem visual, em especial1964, segundo o curador. Foi nesse ano que ele realizou um desenho seminal, Cuadro Escrito, origem de uma intensa busca pela fusão de signos gráficos com a hermética caligrafia que o levou à abstração.

Artista político, mais conhecido por suas obras de caráter anticlerical, León Ferrari foi além do panfletário, reinventando a tradição da 'collage' ao introduzir elementos que nem mesmo os cubistas (Braque, Picasso) ou os surrealistas (Max Ernst) ousaram acoplar à técnica. Há nas 'collages' de Ferrari uma sofisticação conceitual que obriga o espectador a exercícios eruditos de associação. “Ferrari reinventou completamente a 'collage', voltando-a para a desconstrução do poder, como se verifica em sua releitura do Juízo Final de Michelangelo (1985), que, submetido à defecação de pássaros, é um exemplo de obra madura e também política, assim como outras colagens que conjugam figurações cristãs com imagens eróticas orientais”, observa o curador Pérez-Oramas.

No centenário do artista argentino, conclui o curador, ele queria destacar esse aspecto. Num caminho oposto ao da polarização crescente no cenário político, Ferrari evitou o dualismo rasteiro, ampliando o debate sobre o papel das instituições no mundo moderno. Pérez-Oramas lembra que Ferrari foi autor de uma carta enviada ao então papa João Paulo 2.º, pedindo que o inferno fosse revogado.

Essa carta não era um simples manifesto pessoal contra o terror imposto pela doutrina da Igreja, mas um gesto libertário de quem sofreu na Terra o inferno imposto por seus semelhantes. “Ele era um homem muito discreto, apesar da polêmica que envolve sua obra”, observa o curador, lembrando que poucas vezes alguém ouviu Ferrari mencionar sua tragédia pessoal, a perda de um filho perseguido e morto pela ditadura argentina.

Artista várias vezes censurado, Ferrari tinha entre seus desafetos o atual papa Francisco, que, na época arcebispo de Buenos Aires, chegou a proibir uma exposição sua. Em 2004, o sacerdote pediu aos católicos uma “jornada de jejum e orações” contra sua obra e intercedeu para fechar uma individual de Ferrari no Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires. Em 2007, a Bienal de Veneza dedicou a ele o Leão de Ouro, ascensão que culminou com a mostra no MoMA de Nova York em 2009, onde foram exibidos trabalhos pertencentes a séries que também estão na exposição virtual da Galeria Nara Roesler. A galerista admite que o trabalho político de León Ferrari ainda assusta o mercado de colecionadores, mas essa resistência tende a diminuir com o interesse de museus internacionais por sua obra, citando o espanhol Museo Nacional Reina Sofia como exemplo.

A instituição tem diversos trabalhos de Ferrari, especialmente dos anos 1980, em sua coleção, e vai promover uma mostra retrospectiva dedicada a ele em 2021, segundo o curador Pèrez-Oramas. Considerando esse acervo, deverá ser uma exposição direcionada ao trabalho abstrato do artista. A exposição virtual organizada por Oramas vai numa outra direção. Ao replicar a forma característica das línguas de fogo (como descritas no texto bíblico de Atos 2), ele concebeu uma tipologia abstrata, desenhos que são, de acordo com o curador, “testemunhos de uma das experiências mais dramáticas na vida do artista, que figuram como metáforas abstratas do inferno judaico-cristão realizadas por alguém que, mais tarde em sua vida, dirigiria uma carta ao papa exigindo o cancelamento da noção do Inferno”.

 A obra abstrata de León Ferrari não é tão conhecida como esses desenhos, gravuras e colagens. Um dos exemplos na exposição é a escultura de uma série exibida em São Paulo pela primeira vez em 1978, na Pinacoteca do Estado, por iniciativa da crítica Aracy Amaral. Essas obras tridimensionais, chamadas por ela de “galáxias lineares”, conservam o caráter poético de seu processo embrionário, não desvinculado, segundo o curador Pérez-Oramas, do impacto que teve a arte concreta brasileira sobre sua criação. “A construção da linha e a transparência aparecem em São Paulo, quando ele mescla a tradição argentina e europeia ao que ele viu no Brasil dos anos 1970.”

Essas estruturas prismáticas, que parecem gaiolas, algumas em escala monumental, foram desenhadas, como lembra o curador, para eventos participativos, performáticos e sonoros. Porém, como frisa Pérez-Oramas, “o legado mais interessante da produção brasileira de Ferrari está ligado às releituras da Bíblia e à denúncia dos horrores políticos e da violência institucional”.

Em sua longa temporada brasileira, afastado da terra natal, Ferrari integrou-se ao circuito experimental paulistano, buscando a revitalização da sua linguagem artística por meio de técnicas variadas, da heliografia e fotocópia à arte postal. No retorno ao lar argentino, o artista voltou a produzir obras políticas, denunciando os desaparecimentos registrados durante a ditadura militar, como o de seu filho Ariel, ativista político que, ao lado da mulher grávida, foi sequestrado e assassinado pela ditadura argentina. León e Alicia Ferrari nunca tiveram acesso ao corpo do filho.

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