Mostra traz Robert Altman integral

Todos os 37 filmes de um dos mais rebeldes e independentes diretores começam a ser exibidos hoje

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

04 de junho de 2008 | 00h00

Quando recebeu um Oscar especial por sua brilhante carreira, em 2006, o cineasta Robert Altman fez uma terrível confissão: o medo de não mais ser contratado para dirigir um filme fez com que ele escondesse, durante dez anos, que fez um transplante do coração. "Não sei por que, mas decidi contar isso agora. Sempre mantive isso como segredo, pois há um grande estigma sobre artistas que fazem transplantes do coração e que não teriam mais capacidade de trabalhar", contou.Como prova de que a sua saúde não foi abalada, Altman realizou, nesse período, filmes como O Segredo de Gosford Park (2001), em que dirigiu um grande elenco. Cinco vezes indicado para melhor diretor, mas sem jamais ganhar um prêmio pela Academia de Hollywood, Altman morreu meses depois, em novembro de 2006, aos 81 anos. Deixou uma carreira marcada por filmes que beiram a condição de clássicos, como se pode comprovar a partir de hoje, quando o Centro Cultural Banco do Brasil começa a exibir a retrospectiva completa do diretor - não bastasse isso, 33 dos 37 títulos da mostra As Muitas Vidas de Robert Altman serão exibidos em película, uma dádiva em tempos de reinado do DVD.Um dos nomes mais rebeldes e independentes do cinema americano, Altman atuou, em 55 anos de carreira, como diretor, produtor e roteirista. O fato de não constar na lista dos premiados pelo Oscar era visto com uma certa ironia por ele, ciente de que sua obra não se adequava ao gosto médio de Hollywood. "O que é uma obra cult? É apenas uma obra que não tem nem fãs suficientes para formar uma minoria", comentava. Em compensação, quando cruzava o oceano, Altman era devidamente reconhecido nos principais festivais europeus, a ponto de figurar entre os raros cineastas a ter conquistado a tríplice coroa: M.A.S.H. venceu Cannes em 1970, Oeste Selvagem foi melhor em Berlim em 1976, e Short Cuts ganhou o Leão de Ouro em Veneza em 1996.A inteligência do roteiro era apenas um detalhe que explicava a reverência - Altman dominava como poucos a linguagem cinematográfica, habilidade que não se ensina em escolas de cinema. A forma como definia o enquadramento, o encadeamento de imagens, o ritmo do filme conferido pela edição convenciam o espectador (e também boa parte da crítica) de que aquele era o único caminho a ser seguido.Fiel a essa cartilha pessoal, Altman transitou em temas diversos, como o universo da música country em Nashville; o cotidiano picotado de personagens comuns em Short Cuts - Cenas da Vida; o bastidor ganancioso de Hollywood em O Jogador; o universo da moda em Prêt-à-Porter; o absurdo da guerra em M.A.S.H. e O Exército Inútil. E, finalmente, sobre a perenidade a arte justamente em seu último filme, A Última Noite, que trata do fim de um programa de rádio, metáfora para sua carreira: o artista não existe, mas sua obra permanece. ServiçoAs Muitas Vidas de Robert Altman. Hoje, 14h30, De Corpo e Alma; 17 h, James Dean, o Mito Sobrevive; 19h30, Popeye. Centro Cultural Banco do Brasil (70 lug.). Rua Álvares Penteado, 112, centro, tel. 3113-3652. 4.ª a dom. R$ 4. Até 22/6

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