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Mostra revisita obra de Pablo Picasso pelo trabalho de artistas influenciados por ele

Exposição em Paris foi recém-aberta ao público

Andrei Netto, CORRESPONDENTE

23 Outubro 2015 | 05h00

PARIS - As linguagens digitais parecem de fato estar invadindo em definitivo um domínio da cultura que, até há bem pouco tempo, ainda operava em termos analógicos: a exposição de arte. Nos melhores museus do mundo, as mostras que antes se limitariam a quadros de grandes autores pendurados em paredes, acompanhados de breves explicações, agora também são reveladas em salas obscuras, com uma profusão de telas e sonografias especiais. Este foi o formato escolhido pelo Grand Palais, em Paris, para a exposição Picasso.mania, que explora a transformação do catalão em um mito da pintura.

Recém-aberta ao público, a mostra é uma prova da revolução em curso – e não apenas em estética da apresentação, mas também em sua teoria. Em tempos de redes sociais, de Facebook e Twitter, Picasso.mania é um percurso sobre os “seguidores” de Picasso, uma coletânea de artistas influenciados pelo gênio. A ideia de Didier Ottinger, diretor adjunto do Museu Nacional de Arte Moderna do Centro Pompidou, de Paris, e curador da mostra, é demonstrar que, ao longo da segunda metade do século 20, Picasso deixou de ser só um pintor importante para se tornar um mito que influencia artistas das mais variadas origens e nacionalidades ainda hoje.

Até próximo de sua morte, em 1973, lembra Ottinger, o catalão era mundialmente conhecido e admirado por muitos – mas não era a referência quase unânime que se tornou nos quarenta anos subsequentes. Antes que o artista se transformasse em objeto de culto, Douglas Cooper, historiador da arte e colecionador, chegou a qualificar seu trabalho como um “doodle incoerente executado por um velho frenético em sua antessala da morte”. Doodle um esboço gráfico livre feito sem técnica alguma.

Quando, em 1971, aos seus 90 anos, Picasso ainda era uma referência distante no mundo artístico. “Ele era respeitado, mas não influenciava. Para tal, foi necessário esperar os anos 1980”, explica Ottinger.

O que a exposição evidencia é esse momento de transição. Para tanto, foram selecionadas 100 obras-primas de Picasso, expostas à comparação com trabalhos de artistas do nosso tempo. É a lógica inversa da exposição Picasso e seus Mestres (Picasso et les maitres), realizada em 2009 e que se tornou o maior sucesso de público da história do Grand Palais, com mais de 780 mil visitantes.

E a profundidade da influência de Picasso fica clara desde a primeira sala, escura, na qual um imenso telão expõe o testemunho de 18 artistas de todo o mundo sobre como o catalão lhes inspirou ou ainda os inspira. Entre eles, estão desde a pintora britânica Cecily Brown ou o artista plástico francês Philippe Parreno até o arquiteto canadense Frank Gehry e o diretor de cinema americano, e também pintor, Julian Schnabel. O tom, claro, não poderia ser outro que não o de um tributo escancarado. “Não é que Picasso tenha influenciado apenas a mim, mas Picasso influenciou todos os artistas que eu realmente gostava”, diz, no vídeo, o pintor americano Frank Stella, que lembrou ainda do papel central do espanhol para a pintura expressionista e abstrata americana do século 20.

De início, fica clara a penetração do trabalho de Picasso, mas talvez essa seja a única fórmula clara escolhida pelos curadores em toda a mostra. A partir de então, a tese é exposta em um percurso às vezes cronológico, outras vezes temático, mas sempre pouco didático, a bem da verdade. A exemplo do Museu Picasso de Paris, reaberto no ano passado sob a curadoria de Anne Baldassari, os organizadores da exposição do Grand Palais parecem ter decidido que não é mais necessário explicar o mestre catalão ao grande público, e sim falar àqueles com alguma iniciação no tema.

A cada uma das 15 seções, uma obra ou conjunto de obras de Picasso é evocada – por sua presença física ou não – por artistas que a reinterpretaram de alguma forma. Guernica, por exemplo, inspira Rudolf Baranik a criar Stop the War in Vietnam Now, e Adel Adessemed a elaborar o monumental Who’s Afraid of the Big Bad Wolf?.

Um dos pontos altos para o grande público é o trabalho de artistas do Pop Art, que, sem surpresa, transformam Picasso em uma espécie de marca. É o caso de Roy Lichtenstein, com Picasso Goes Pop, e Andy Warhol, com Head (After Picasso).

Ao longo da exposição, há trabalhos menos interessantes, é verdade, mas também há outros brilhantes, como Harlequin e Paint Trolley, de David Hockney, e Picasso’s Studio, de Faith Ringgold. Em meio à profusão de artistas que releem o mestre, fica a questão: talvez esteja no Grand Palais um futuro Picasso.

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