Mostra revê quase 2 séculos de circo

Galeria Olido exibe até o dia 27 evento com mais de 100 fotos, fichas de artistas, maquete de um picadeiro e documentário

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

16 de julho de 2008 | 00h00

Os irmãos Luís Nunes Pedro, de 66 anos, e João Pedro Luís, de 75, são as únicas testemunhas de uma época de ouro do circo brasileiro, que continuam trabalhando no mesmo local que já foi o ponto de encontro entre a classe artística de todo o País e o público - o Largo do Paissandu. Há 52 anos, seu Luís e seu João são donos do Restaurante Ita, localizado na estreita Rua do Boticário, de número 31, que desemboca em frente de um turbulento ponto de ônibus hoje em dia. ''Ah, antes não era assim, não. Naquele tempo, dava pra gente ir ler um jornal tranqüilamente num banco do Largo. Hoje, nem banco tem mais'', diz, aos suspiros, seu Luís. ''Também já perdi até as contas de quantas vezes fomos assaltados.''Eles presenciaram ali, no Largo que rodeia a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, palhaços de raro talento, virtuosos equilibristas, trapezistas e malabaristas, além do midiático faquir Silki, que bateu o recorde mundial por não comer durante 115 dias, enquanto algodões-doces, amendoins e pipocas pulavam de mãos em mãos. ''Você sabia que tinha um ajudante do Silki que sempre aparecia aqui no restaurante para pedir vitaminas pra ele?'', desmascara seu João, um tanto receoso de revelar a notícia que seria bombástica se relevada há 28 anos.Parte dessa memória que ainda faz os olhos dos irmãos se emocionarem está exposta em diversos painéis, mais de 100 fotos, 80 fichas cadastrais de artistas de diversas gerações, uma linda e enorme maquete de um circo e um documentário na Galeria Olido: a exposição Largo do Paissandu - Onde o Circo se Encontra reúne tudo o que de mais sagrado ocorreu em quase dois séculos de picadeiro brasileiro, um trabalho que teve início há pouco mais de dez anos, graças à iniciativa da ex-acrobata, atualmente pesquisadora e pra sempre amante da arte circense, Verônica Tamaoki.Em 1995, após longas e memoráveis (no sentido mais literal da palavra) conversas com Roger Avanzi, o palhaço Picolino II, filho de Nerino, eles decidiram juntos começar a organizar e catalogar todo o material que ele dispunha - e que recontava grande parte da história do circo ao estilo verde-e-amarelo. Em novembro de 2004, nascia a belíssima obra Circo Nerino, que impulsionou Verônica a continuar desenvolvendo atividades que preservassem uma memória tão importante quanto relegada pelos poderes públicos.A tocante exposição, abrigada na Galeria Olido até o próximo dia 27, foi uma conquista decisiva: se tudo correr dentro do previsto, o encerramento dela deve culminar com a inauguração do Centro de Memória do Circo, um espaço permanente, alocado no térreo do mesmo prédio, destinado a pesquisadores, estudantes, curiosos ou simplesmente apaixonados pela arte. ''Já temos em mãos os acervos mais relevantes do circo brasileiro, como os do Nerino e do Garcia. E é claro que isso tudo só foi possível graças ao trabalho de muita gente que há alguns bons anos se dedica ao circo e colabora com o amadurecimento da classe artística e do País'', diz Verônica.Da chegada das primeiras famílias circenses européias, em 1831, o que iniciou um processo de integração e ''mestiçagem'' com os artistas locais e nossa cultura popular, passando por figurinos e registros fotográficos de artistas que se consagraram sob as lonas, como o palhaço Piolin, o visitante pode ter uma idéia muito clara da importância que o circo, especialmente o de origem familiar, já teve no País. Todas as fotos expostas na Olido são acompanhadas de um breve contexto, como a que revela quão popular foi o Café dos Artistas, casa onde artistas e produtores se encontravam toda segunda-feira, dia de folga. O encontro teve início no fim do século 19 no Largo do Rosário (atual Praça Antônio Prado) e não só servia como uma vitrine de talentos para possíveis contratações, como também para trocar experiências e até paquerar. O Café dos Artistas também funcionou no Juca Pato, Ponto Chic e na esquina da Av. São João com a Rua Dom José de Barros, chegando a aglomerar até 500 pessoas. No fim da década de 1980, com o avanço da tecnologia, o Café foi deixando de existir e pulverizou-se em diversos pontos da cidade.Seu Luís e seu João, os últimos remanescentes no local desses tempos áureos, também estão passando o ponto.ServiçoLargo do Paissandu - Onde o Circo se Encontra. Galeria Olido. Av. São João, 473, 3331-8399, 3.ª a sáb., 12 h às 21h30 (2.ª até 19 h; dom., 19h30). Grátis. Até 27/7

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