Bergamin & Gomide Galeria
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Mostra relembra a rebeldia de Bruce Conner

Expoente da contracultura americana, morto em 2008, tem sua obra exposta na galeria Bergamin & Gomide e seus filmes exibidos no IMS

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

05 de novembro de 2019 | 06h00

Quando alguém se referia a ele como o “pai da MTV’, Bruce Conner contestava: “Só reconheço com um teste de DNA”. Rebelde, o radical artista norte-americano, morto em 2008, aos 74 anos, mito da arte experimental dos anos 1960, era contra o culto personalista. Tanto que muitas obras suas nem são assinadas, caso de Leaves, colagem sobre papel feita em 2001 para homenagear os mortos no atentado terrorista das Torres Gêmeas, em Nova York. Essa é uma das peças selecionadas pelo marchand Thiago Gomide para a exposição Breakaway, que será aberta hoje (5) na Bergamin & Gomide.

Breakaway é o título de um filme em 16 milímetros realizado em 1966, que virou referência da contracultura e foi adotado como modelo dos videoclipes que a MTV tornaria popular anos depois. A galeria montou uma sala especialmente para projetar o curta (5 minutos) em que a dançarina, coreógrafa e cantora Toni Basil aparece dançando enquanto se livra das roupas ao som da música Breakaway, composta por ela.

Não é uma canção propriamente inesquecível, mas serve ao propósito da experiência disruptiva que Breakaway representa – a letra fala da necessidade que Basil tem de “quebrar as correntes’ das convenções e se libertar das obrigações que a sociedade impõe ao indivíduo. Libertária, a bela Basil, na época namorada do ator Dean Stockwell, faz do seu corpo em Breakaway um veículo para a experiência alucinógena de Conner – a câmera frenética não dá descanso ao espectador e a iluminação (a cargo do ator e diretor Dennis Hopper) reforça o pictorialismo do diretor, que carrega no alto contraste.

O crítico Tiago Mesquita bem definiu Breakaway como “um ritual de transe” em que a dança “passa a ser feita pelas síncopes da imagem”. A dinâmica da montagem, em que os movimentos surgem de cortes abruptos, acentua a dimensão erótica da dança. Toni Basil, ainda hoje uma bela mulher, aos 76 anos, sempre esteve ao lado de criadores comprometidos com a experimentação – ela coreografou o videoclipe da música Once in a Lifetime, do Talking Heads, e, mais recentemente, duas sequências do filme de Quentin Tarantino, Era Uma Vez em Hollywood, uma delas a de Sharon Tate dançando numa festa promovida pela Playboy.

Ela também atuou num filme icônico da contracultura, Sem Destino (Easy Rider, 1969), dirigido pelo amigo Dennis Hopper, que considerava Bruce Conner o principal artista norte-americano do século 20. Pode parecer exagero, mas o fato é que Conner antecipou muitas das “invenções” do cinema do audiovisual contemporâneo, como Clock, a experiência com o tempo real desenvolvida por Christian Marcaly, que deve muito ao filme A Movie (1958), uma assemblage que combina trechos de noticiários, filmes B e pornografia leve.

Alguns de seus filmes estão sendo exibidos pelo Instituto Moreira Salles simultaneamente à exposição da Bergamin & Gomide. Os temas dessas produções são recorrentes: a paranoia nuclear, a derrocada dos mitos políticos e a liberação sexual feminina. Como um Duchamp das telas, ele fez o que se chama de “found footage films” (filmes realizados com materiais recolhidos de outras produções). Um desses filmes é Crossroads (1976), que reaproveita o material registrado durante testes nucleares no atol de Bikini, em 1946, mostrando uma explosão atômica em câmera lenta com música do minimalista Terry Riley.

“Conner sempre esteve associado a artistas de vanguarda como Riley, tendo trabalhado em filmes com trilhas assinadas por músicos como Herbie Hancock e Brian Eno”, lembra a americana (filha de mexicanos) Michelle Silva, curadora do espólio do artista. “Embora tenha feito muitos filmes de forte conteúdo ideológico, ele não gostava quando se referiam a ele como um artista político”, diz ela. “Ele criticou, sim, as estruturas de poder por ser um rebelde nato, mas se via mais como um artista conceitual que fazia uso de uma iconografia oficial – da igreja, de governos – para desmontá-la, como se vê em muitos de seus trabalhos gráficos e pinturas”. Contudo, Conner não se considerava profeta. “Ele dizia que era um homem de seu tempo, o que se pode atestar por suas colaborações com músicos como David Byrne e grupos como o Jefferson Airplane”.

É essa obra que vem sendo revalorizada. Em 2016, o Museu de Arte Moderna de São Francisco dedicou uma retrospectiva (It’s All True) a Bruce Conner, ampliada na versão exibida depois pelo MoMA de Nova York.

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