Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Mostra no Museu da Casa Brasileira destaca moradias paulistanas

Exposição do fotógrafo Marcos Freire retrata os modos de morar da população de classe média em diferentes subdistritos de São Paulo

Júlia Corrêa, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 09h00

O Museu da Casa Brasileira reabriu suas portas em outubro com mais uma edição do projeto Casas do Brasil. A iniciativa, que destaca a diversidade das moradias no País, volta agora seu foco a São Paulo, por meio de uma exposição do fotógrafo Marcos Freire.

Com formação em arquitetura e urbanismo e experiência em fotografia publicitária, Freire vem atuando, nos últimos oito anos, como perito imobiliário. As fotografias exibidas ao público são um desdobramento desse seu trabalho, que contempla casas espalhadas por 94 dos 96 subdistritos da capital. “As fotografias são um arquivo do meu trabalho, que é muito técnico e documental”, explica o fotógrafo em entrevista ao Estadão.

Quem visitar a mostra, que tem curadoria de Didiana Prata, poderá notar a ausência de textos acompanhando as imagens exibidas, legendadas apenas com o nome do subdistrito em que as moradias estão situadas. Essa falta não é casual. Relaciona-se, segundo Freire, com o próprio caráter objetivo de seu ofício: “Eu tomo muito cuidado para fazer esse trabalho artístico porque não pode esbarrar em questões que sejam invasivas. Assim, o que proponho é mais uma visão holística.”

Embora as fotos não tragam nenhuma pessoa retratada nos ambientes, o resultado surpreende, de acordo com o fotógrafo, por uma impressão geral de “muita humanidade”. É que, no recorte feito por ele, que se concentrou em lares da classe média de São Paulo, é possível encontrar indícios de uma ocupação muito orgânica e mesmo afetuosa dos espaços.

Elementos comuns a boa parte das fotografias, o improviso na decoração dos ambientes, as imperfeições e os remendos nas construções conferem, em última instância, singularidade e personalidade a cada um dos espaços retratados. Esses aspectos ficam bastante evidentes em trípticos apresentados em uma sala específica da mostra, que sugerem tramas entre as diferentes moradias registradas.

“Não é exotismo; é a realidade”, pontua Freire, ressaltando que os ambientes nos quais se deteve diferenciam-se muito da estética encontrada usualmente em revistas de decoração. “Por isso, é uma abordagem política: uma afirmação de como vive a maioria da população de São Paulo; uma população que não está nunca na visibilidade das narrativas tradicionais, nas matérias de lifestyle das revistas”, avalia o fotógrafo.

A escolha e a edição das imagens envolveram um longo processo, durante o qual Freire chegou a mobilizar um grupo de fotógrafos de diferentes origens para discutir as suas implicações até mesmo políticas. “Percebi a dimensão histórica que esse trabalho tem. A seleção buscou mostrar a beleza das coisas quando são investidas com afeto, independentemente da estética. Hoje, na arquitetura, há construções absurdas feitas com computador que parecem ficção científica. Este é o outro lado — é o pessoal que está a duras penas conseguindo lutar pela sua dignidade.”

Num momento em que a pandemia faz com que as pessoas se conectem mais com os seus lares, Freire considera a coincidência de sua exposição estar em cartaz agora — embora planejada antes de qualquer notícia sobre o coronavírus — um feliz “encaixe de sentidos”, precisamente pelo afeto expresso nas imagens apresentadas.

Contrapontos

Na sala expositiva ao lado de Casas do Brasil: Conexões Paulistanas, é possível conferir ainda a mostra Campos de Altitude, de Kitty Paranaguá. Ao longo de um ano e meio, a fotógrafa carioca visitou residências em comunidades do Rio de Janeiro e fez retratos dos moradores. Sobre eles, projetou imagens da paisagem vista a partir de seus lares. 

Uma proposta diferente da de Freire, mas que estabelece um diálogo com aspectos também ressaltados pelo fotógrafo, como os contrastes sociais, as relações com o entorno a ocupação orgânica dos espaços. Além das 15 fotografias produzidas nas comunidades de Pavão Pavãozinho, Tavares Bastos, Chapéu Mangueira, Cantagalo, Vidigal e Rocinha, a exposição apresenta uma série de depoimentos coletados em áudio.

Serviço

Museu da Casa Brasileira. Av. Brig. Faria Lima, 2.705, Jd. Paulistano, 3032-3727. 10h/18h (fecha 2ª). R$ 15 (sáb. e dom., grátis; ingressos em eventbrite.com.br). Até 10/1/2021.

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