Mostra no Instituto Artium traz trabalhos de Jairo Goldflus e João Caldas

Mostra no Instituto Artium traz trabalhos de Jairo Goldflus e João Caldas

Registros marcantes do teatro revelam detalhes estéticos da atuação

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2022 | 05h00

A imagem escolhida para divulgar a exposição Jairo e João: O Teatro na Fotografia de Jairo Goldflus e João Caldas Sobre a Cena Teatral é emblemática: traz Marília Pêra pensativa, sentada em uma poltrona, cabeça apoiando na mão que também segura o cigarro. Tirada em 2004, a foto registra uma cena da peça Mademoiselle Chanel, dirigida por Jorge Takla e um dos momentos marcantes da grande atriz. 

Emblemática porque não apenas perdurou ao longo do tempo, como marcou o próprio momento do fato apresentado, eternizando uma arte – o teatro – que, por sua natureza, é efêmera: as cenas ficarão na memória de quem as viu, sem um registro físico como o cinema, a música, a literatura. Assim, a mostra, que abre na quarta, 1.º, no Instituto Artium, tem o mérito de recuperar vestígios do que já não existe mais. “Jairo e João buscam o belo paradoxo de capturar o incapturável, já que o teatro só existe mesmo enquanto acontece”, observa o diretor e cineasta Rafael Gomes, curador da exposição.

São 86 fotos impressas e 128 exibidas em vídeos de espetáculos diversos. O ponto de partida é 2004, quando Goldflus iniciou seu trabalho no teatro, registrando o musical Chicago – Caldas começou antes, ainda jovem, em 1980, quando fotografou os bastidores do álbum Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé.

O visitante logo nota as diferentes escolhas estéticas de cada fotógrafo: enquanto Goldflus privilegia as imagens de estúdio, onde a cena pode ser cuidadosamente construída, Caldas prefere o calor da ação, registrando a atuação do elenco. “Os retratos de Jairo são marcados pela beleza, precisão e rigor formal”, comenta Gomes. “Já a extensa e sólida produção fotográfica de João tende a privilegiar a cena propriamente dita. São fotografias de palco, instantâneos dos espetáculos, que conjugam a pulsação e a intensidade das apresentações teatrais com raro senso de composição e domínio técnico.”

Assim, na primeira sala estão 22 ampliações, 11 de cada profissional. As imagens estão dispostas aos pares, sendo que uma de Goldflus está acompanhada de outra de Caldas, uma de costas para a outra. A exposição dispensa molduras e as fotos estão colocadas em apoiadores de vidro que lembram os cavaletes de cristal criados por Lina Bo Bardi para o Masp. O cenógrafo André Cortez, que assina a expografia da mostra, criou diferentes dispositivos, que ocupam tanto o espaço interno quanto o jardim do Instituto Artium.

A forma de visualização também é engenhosa: o espectador que se posicionar em um canto da sala terá a visão das 11 imagens de Caldas; e, se se posicionar no lado oposto, conseguirá ver as de Goldflus. “Ambos oferecem um precioso balanço do teatro musical e do não cantado dos últimos 18 anos”, comenta o curador, que reservou ainda outra sala para expor juntas imagens que ambos fizeram do mesmo espetáculo (“há um perfeito diálogo entre elas”) e também uma mesa contendo apenas a produção de Caldas, uma vez que seu acervo é mais substancioso. “Ele contempla a vastidão teatral de São Paulo, desde musicais a experiências cênicas.”

O Estadão acompanhou uma visita de Caldas e Goldflus ao instituto, onde trocaram impressões. “Ao fotografar no estúdio, tenho o privilégio de observar a emoção dos atores ao receber pela primeira vez seus figurinos”, conta Goldflus, hoje com 54 anos. “É o momento em que eles mais se aproximam dos personagens. Vi isso quando Marília Pêra primeiro experimentou os figurinos de Chanel, recém-chegados de Paris. Ela se olhava cuidadosamente no espelho, já experimentando movimentos.”

Já Caldas, de 64 anos, prefere a ação – e sem direito a observações prévias. “Não gosto de primeiro ver o espetáculo para então fotografar: prefiro clicar de primeira. Tento reproduzir o desenho dos movimentos.”

Goldflus prefere o registro em preto e branco. “É a poesia que combina com o teatro, tonalidades que não me distraem. O colorido é muito real, acaba datando a imagem.” 

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