Coleção Eduardo Augusto de Brito e Cunha/ Instituto Moreira Salles
Coleção Eduardo Augusto de Brito e Cunha/ Instituto Moreira Salles

Mostra no IMS reúne originais de J. Carlos, um dos principais cronistas visuais do Brasil

De 1902, quando publicou seu primeiro desenho, até sua morte, em 1950, J. Carlos produziu mais de 50 mil trabalhos entre caricaturas, charges, cartuns, ilustrações, letras, vinhetas, adornos, peças publicitárias e outros

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

26 de setembro de 2019 | 07h00

O chargista José Carlos de Brito e Cunha, mais conhecido pela assinatura J. Carlos, trabalhava em mais um desenho quando, de repente, sua cabeça caiu sobre a escrivaninha, na redação da revista Careta. Um AVC fatal encerrou ali uma sólida e brilhante carreira. Era 2 de outubro de 1950 e ele estava com 66 anos. “Além de ser um artista genial, J. Carlos era uma verdadeira usina de produção, deixando um enorme legado de desenhos”, observa outro craque da caricatura, Cássio Loredano, que, ao lado de Julia Kovensky e Paulo Roberto Pires, assina a curadoria de J. Carlos – Originais, exposição em cartaz no Instituto Moreira Salles de São Paulo.

Trata-se de uma rara oportunidade de se (re)descobrir o trabalho de um dos mais inventivos artistas da imprensa brasileira da primeira metade do século passado – e também mais produtivo. Afinal, de 1902, quando publicou seu primeiro desenho, até sua morte, em 1950, J. Carlos, que nasceu em 1884, produziu mais de 50 mil trabalhos. Foram caricaturas, charges, cartuns, ilustrações, letras, vinhetas, adornos, peças publicitárias. “Ele fazia tudo o que era possível para um artista daquela época, utilizando lápis, caneta e pincel e especialmente o nanquim”, explica Loredano que, desde 1995, estuda com afinco o traço do colega carioca.

A mostra conta com cerca de 300 itens, entre desenhos e publicações. Como J. Carlos trabalhou ininterruptamente durante 48 anos, o visitante terá a chance de conhecer seu processo criativo, pois, ao privilegiar os originais, muitas vezes anotados, a exposição não apenas dá conta de alguns dos temas mais recorrentes do artista, mas também flagra o processo de criação das ilustrações, da prancheta para as páginas.

Pesquisadores são unânimes em apontar J. Carlos como um dos primeiros representantes do modernismo no Brasil, graças à leitura original que fez de estilos arquitetônicos como art nouveau e art déco, cujos traços geométricos se inspiravam em formas e estruturas naturais – e sempre permeado por um humor elegante. “Ele transcende o universo dos desenhistas, dos caricaturistas. Sua obra causa impacto até hoje, as pessoas reconhecem o traço, a estética de uma era específica, a belle époque, que ele conseguiu associar ao seu trabalho”, afirma a curadora Julia Kovensky.

Ao poder “acessar os bastidores da obra, quando visualiza os originais”, segundo o também curador Paulo Roberto Pires, o visitante vai entender o processo criativo de J. Carlos, que trabalhou para as revistas Careta, Para Todos..., Fon-Fon! e Almanaque do Tico-Tico. “Vai perceber também como J. Carlos evoluiu no traço – basta ver o primeiro trabalho publicado, em 1902, uma charge que tem uma caricatura do então presidente Campos Sales e que é horrível”, pondera Loredano.

Para facilitar o entendimento dessa evolução, a exposição do IMS foi montada em quatro seções. A primeira mostra a faceta artesanal de J. Carlos, ou seja, a criação de letras, vinhetas, rascunhos e logotipos. É possível observar, por exemplo, o preciosismo com que ele criava capitulares e vinhetas para os textos literários publicados nas revistas em que ele trabalhou. “É um dos capítulos mais bonitos da exposição. Todo escritor publicava na imprensa da época, e ele fazia a roupa visual de tudo”, comenta Loredano.

Em seguida, na segunda seção, desponta a sátira política brasileira, sobretudo os períodos dos governos Getúlio Vargas (1930-1945) e Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), retratados com belíssimas caricaturas. Nessa ala, destaque também para o retrato do cotidiano do Rio de Janeiro, em especial o carnaval, que o desenhista retratava com riqueza de detalhes – estão ali mulheres faceiras, homens opulentos, personagens que descobria ao andar constantemente de bonde. Detalhe importante: as pessoas negras eram grosseiramente desenhadas, sem detalhes faciais, seguindo a cartilha da época que desprezava essa faixa da população.

A terceira seção é dedicada à produção criada durante a 2.ª Guerra Mundial: os principais líderes inspiram desenhos que traduzem o pensamento antifascista de J. Carlos. Finalmente, na última seção, destaca-se um aspecto pouco conhecido de seu trabalho, aquele dedicado às histórias para crianças. Como observa Loredano, são quadrinhos formalmente ousados, publicados semanalmente em O Tico-Tico e também em Minha Babá, livro que se tornou raridade e no qual exercitou seu virtuosismo. A mostra comprova, portanto, que seu desenho não envelheceu.

QUEM É — J. Carlos, desenhista

José Carlos de Brito e Cunha, conhecido como J. Carlos (abaixo, uma autocaricatura), nasceu no Rio, em 1884. Foi chargista, ilustrador, designer gráfico, autor de teatro de revista, letrista de samba, escultor. Publicou pela primeira vez em 1902, na revista Tagarela. Tornou-se o principal desenhista do Rio no início do século passado. Morreu em 1950, enquanto trabalhava. 

J. CARLOS – ORIGINAIS

INSTITUTO MOREIRA SALLES. AVENIDA PAULISTA, 2424. TELEFONE: 2842-9120. GALERIA 1. 

3ª A DOM E FERIADOS, 10H / 20H. 5ª, 10H / 22H. NÃO ABRE 2ª. 

ENTRADA GRATUITA. 

ATÉ 26/1/2020.

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