Mostra mediana que aponta para a crise

Longas de ficção escolhem festivais de visibilidade ou alto prêmio em dinheiro

Luiz Zanin Oricchio, RECIFE, O Estadao de S.Paulo

06 de maio de 2009 | 00h00

Tudo terminou bem no 13º Cine-PE, mas o que não se pode é esconder que a mostra competitiva de longas-metragens foi apenas mediana, sem qualquer filme realmente forte na disputa. Carência visível sobretudo nos filmes de ficção. Nesse quesito, Recife repete o que já vem acontecendo em outros festivais, como o de Brasília do ano passado: teve mais facilidade de arranjar documentários do que filmes de ficção para concorrer. Essa situação se deve a vários motivos, entre os quais a farta produção de documentários, facilitada pelas novas tecnologias. Além disso, a dificuldade de inserção no mercado, os leva a procurar os festivais, que passam a ser, para eles, janelas privilegiadas de exibição. Enquanto isso, os longas de ficção esnobam os festivais ou escolhem entre eles os de maior visibilidade (como no Rio) ou com altos prêmios em dinheiro (como em Paulínia). Talvez a curva de inflação dos festivais no Brasil tenha infletido para baixo. Nesse quadro, venceram o escracho e a polêmica com Alô, Alô, Terezinha!, que, além do prêmio de melhor filme pelo júri oficial, ganhou os troféus de público e montagem. Foi a escolha certa, dadas as condições da mostra deste ano. Pelo menos, o filme de Nelson Hoineff é daqueles que desafinam o coro dos contentes e põem alguma pimenta num ambiente cultural dominado pelo politicamente correto, isto é, tendendo à esterilidade. É um filme que provoca. O que, exatamente, se pode discutir. O outro documentário concorrente, Um Homem de Moral, sobre Paulo Vanzolini, também foi bem contemplado com o Prêmio Especial do Júri, edição de som e roteiro, escrito pelo próprio diretor Ricardo Dias - prêmio este um tanto estranho para um documentário, mas enfim, não foi a única das estranhezas desta edição do festival. Outra delas foi a excelente premiação da ficção Praça Saenz Peña, de Vinícius Reis, que ganhou as Calungas (nome do troféu do festival) de direção, atriz (Maria Padilha), ator (Chico Diaz) e atriz coadjuvante (Isabela Meireles). O problema é que a projeção do concorrente foi péssima em virtude da incompatibilidade entre a cópia trazida e o equipamento do cinema. A solução foi projetar um DVD, com as evidentes limitações desse procedimento em uma tela grande e sala enorme. Na entrevista, Maria Padilha admitiu que Praça Saenz Peña era filme de nuances, no qual "conta mais a troca de olhares do que o aquilo que é dito". O júri teve de ver a cópia num aparelho de DVD para perceber tais sutilezas. Uma situação longe da ideal, para dizer o mínimo. O paranaense Mistéryos ganhou três prêmios - direção de arte, ator coadjuvante (Leonardo Miggiorin) e fotografia - enquanto o baiano Estranhos ficou com o solitário troféu de trilha sonora. Enfim, todos, mesmo os menos agraciados, ganharam sua lembrancinha e devem se dar por satisfeitos. Enquanto os longas eram apenas medianos, a criatividade maior era observada entre os curtas. Na seção de 35 mm venceu o ótimo Superbarroco, de Renata Pinheiro, enquanto entre os curtas digitais, o ganhador foi A Ilha, criativa animação de Ale Camargo. O público elegeu como melhor curta Black Out, de Daniel Rezende. Mas vários outros filmes agradaram, como o inventivo Muro, do pernambucano Tião, que ficou com os troféus de direção de arte e montagem, mas merecia mais. Valeu a pena estar no Recife muito mais pelos curtas do que pelos longas. E também pela simpática visita de Costa-Gavras, que exibiu seu recente Éden à l?Ouest, e atendeu com infinita paciência fãs e jornalistas. Foi o destaque do festival. O repórter viajou a convite da organização do festival

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