Mostra homenageia o humanista Alfonso Reyes

Mexicano que foi embaixador no Brasil nos anos 1930 é tema de debates e exibição de obras de arte que ganhou de amigos ilustres como Cândido Portinari

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2008 | 00h00

O mexicano Alfonso Reyes (1889-1959) foi, acima de tudo, um humanista, como bem comprova a exposição que começa hoje, no Instituto Cervantes, chamada O Caminho Entre a Vida e a Ficção. Apaixonado pelo Brasil, onde trabalhou como embaixador de seu país nos tumultuados anos 1930, Reyes estabeleceu relações com a intelectualidade nacional que ultrapassavam a mera regra da diplomacia - foi amigo dos poetas Cecília Meireles e Manuel Bandeira, além de manter uma fraterna amizade com o pintor Cândido Portinari, que lhe ofertou diversos de seus quadros. Manteve também uma relação fluente com os pintores Emiliano Di Cavalcanti e Cícero Dias, e com os escritores Graça Aranha, Aníbal Machado, Murilo Mendes, Ribeiro Couto e Alceu Amoroso Lima.Dessas amizades, Reyes, que também foi embaixador em Buenos Aires e Paris, além de ter vivido em Madri, lapidou um estilo fino e cristalino para escrever poesia e prosa diversa, desde ficção até ensaios literários. Foi na embaixada mexicana no bairro das Laranjeiras, no Rio, aliás, que Reyes tanto abrigou os perseguidos pelo regime getulista como produziu boa parte de sua obra literária. Era um admirador da língua portuguesa, especialmente a falada no Brasil, divertindo-se com as sutilezas do idioma, especialmente quando comparadas com as de Portugal, ou quando batiam de frente com o espanhol.''A obra de Alfonso Reyes é a conjunção da inteligência com a sonoridade mais funda da linguagem'', argumenta César Antonio Molina, na introdução do portentoso catálogo da exposição do Instituto Cervantes. ''Uma festa do idioma em que a erudição funciona como uma ferramenta lúdica, uma exploração com todas as opacidades e o resplendor do vital e do intelectual.''A variedade artística de Reyes, cultivada em meio a intelectuais do nível de Ortega y Gasset, influenciou uma série de pensadores, como Octavio Paz que o identificava como mestre. ''Ele tentou ler tudo e escrever sobre tudo, possuído, ao longo de uma vida intensa, viajada, diplomática, acadêmica, jornalística e social, por uma paixão pela cultura e um espírito generoso que imprimiram em todos os seus escritos uma fisionomia inconfundível de elegância e sã humanidade'', escreveu Mario Vargas Llosa, em artigo publicado pelo Estado em 2005.É tal perfil que está presente na exposição Alfonso Reyes - O Caminho Entre a Vida e a Ficção, cuja abertura será marcada hoje por um debate entre Alicia Reyes, neta do escritor e diretora da Capilla Alfonsina na cidade do México, e Héctor Perea, escritor e investigador, especialista em Reyes, sob mediação de Andrés Ordóñez, cônsul-geral do México no Rio, no Auditório do Instituto Cervantes. A mostra reúne ainda 71 fotografias do escritor, 18 manuscritos e documentos e 26 livros do autor, além de contar com material audiovisual do homenageado, homem que, ao deixar o cargo de embaixador do México no Brasil, mereceu a seguinte referência de Manuel Bandeira no poema Rondó dos Cavalinhos: ''Os cavalinhos correndo,/ E nós, cavalões, comendo.../ Alfonso Reyes partindo, / E tanta gente ficando...''Serviço Alfonso Reyes. Instituto Cervantes . Av. Paulista, 2.439, 3897-9609. Abertura hoje, 19h30, com debate

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