Justine Emard
Justine Emard

Mostra futurista 'Consciência Cibernética' reúne nove obras tecnológicas

Realizada em três andares do Itaú Cultural, exposição reflete sobre inteligências humana e artificial e computação gráfica do ponto de vista artístico

Pedro Rocha, Especial para o Estado

27 de março de 2019 | 03h00

Mais do que inteligência, a discussão hoje sobre o desenvolvimento tecnológico gira em torno da capacidade de máquinas terem uma consciência artificial, estimulada a partir de algoritmos. Com o avanço científico, já existem, na atualidade, os chamados computadores quânticos, capazes de produzir qualquer tipo de algoritmo. 

Pensando nisso, a partir de um estudo que já dura mais de uma década na instituição, o Itaú Cultural inaugura, em São Paulo, uma exposição sobre o tema, que apresenta uma discussão sobre os algoritmos do ponto de vista artístico. Intitulada Consciência Cibernética (?) Horizonte Quântico, a mostra será aberta ao público às 20h desta quarta, 27, e segue até o dia 19 de maio. 

São, ao todo, nove obras tecnológicas que refletem sobre a temática, espalhadas por três andares expositivos do prédio da instituição, na Avenida Paulista. Para o curador da mostra, Marcos Cuzziol, gerente do Núcleo de Inovação do Itaú Cultural, é importante pensar os algoritmos com um distanciamento maior do que vemos no dia a dia, nos anúncios publicitários de redes sociais ou em aplicativos de transporte ou tradução automática. 

“É importante trazer o que os artistas estão fazendo. Algumas obras aqui da mostra, ao contrário de um algoritmo gerado por uma empresa, têm uma função completamente diferente – e se é que têm alguma função”, reflete o especialista. “É um questionamento sobre o caso. Aqui, as obras levam a discussão a outro nível: ‘Olha o que o algoritmo está interpretando’.”

A nova exposição é uma sequência de outra mostra já realizada no espaço, em 2016. A diferença agora é a inclusão dos estudos de computação quântica. “Até pouco tempo atrás, os computadores quânticos eram experimentais, instáveis, até que uma empresa canadense os lançou comercialmente”, explica Cuzziol. “A computação quântica vem tendo uma evolução parecida com a computação digital anos atrás.”

Para a nova mostra, foram escolhidas oito obras já existentes para ilustrar o tema. A que abre a exposição, intitulada Cloud Piano (2014), do americano David Bowen, faz uma leitura das nuvens que sobrevoam o prédio, a partir de um vídeo ao vivo, e a transforma em notas musicais num piano. “É uma obra bastante poética, porque o resultado é uma interpretação da máquina, do algoritmo, do que se está vendo no céu, fazendo uma tradução para o som”, analisa o curador. 

No mesmo andar, estão ainda outras quatro obras bastante significativas. Duas do turco Memo Akten, Learning To See: Gloomy Sunday (2017) e Deep Meditations: A Brief History of Almost Everything in 60 Minutes (2018), se complementam e usam os algoritmos para transformar imagens virtuais. Já Borgy&Bes (2018), do austríaco Thomas Feuerstein, traz duas lâmpadas cirúrgicas da década de 1950 com alto-falantes; elas leem e comentam posts publicados em redes sociais. Por fim, na sala, está ainda uma obra já considerada clássica, Agent Ruby (1999-2002), da americana Lynn Hershman Leeson, que apresenta uma robô “chatterbot”, programada para responder ao público.

No andar de baixo, estão mais três obras internacionais sobre o tema. ?TON/2 (2017), da dupla suíça Cod.Act (André e Michel Décosterd), é uma instalação em que uma estrutura plástica, a partir de um estímulo musical, emula um animal, se aproximando do movimento de uma cobra. Já Quantum Garden (2018), do britânico Robin Baumgarten, usa estudos quânticos para uma instalação interativa, em que o visitante participa de um jogo de luzes. Por fim, Co(ai)xistence (2017), da francesa Justine Emard, é uma videoinstalação em que o dançarino japonês Mirai Moriyama interage com uma robô, que aprende a expressão corporal do artista e tenta reproduzi-la.

No último andar da exposição, foi desenvolvida uma instalação comissionada especialmente para a mostra no Itaú Cultural. A artista Rejane Cantoni, que atuou desde o início como pesquisadora na exposição, desenvolveu, com a ajuda de alguns cientistas e da própria equipe da instituição, a obra Quantum (2019), uma instalação que funciona como uma espécie de simulador de comportamentos. 

“No meio do caminho, tinha esse nó. O que apresentar do Brasil? Fizemos uma pesquisa, fomos atrás de alguns projetos que a gente conhecia, mas que ainda estavam em desenvolvimento, não estavam prontos. O Cuzziol teve então a ideia de desenvolver alguma coisa por aqui, como um laboratório”, explica ainda Cantoni. “A ideia é fazer o público entrar em um universo invisível, ao qual não tenha acesso, embora sejamos feitos dele.”

Na simulação, a partir de uma projeção, o visitante entra no espaço das partículas subatômicas. Sua sombra, no processo, passa por transformações e é manipulada, segundo a artista, da forma como as partículas são manipuladas dentro do mundo quântico. 

CONSCIÊNCIA CIBERNÉTICA

Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, tel. 2168-1777. Abertura 4ª (27), 20h. 3ª a 6ª, 9h/20h; sáb., dom. e feriado, 11h/20h. Até 19/5 

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