Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Mostra exibe diferentes representações de São Francisco na arte italiana

Exposição que chega a São Paulo traz pinturas de nomes como Ticiano e Perugino

Pedro Rocha, Especial para o Estado

15 de fevereiro de 2019 | 03h00

Poucos santos da cultura católica possuem um apelo tão popular quanto o São Francisco. E a adoração não é de hoje. Já em pouco tempo após sua morte, no século 13, Francisco foi, aos poucos, se tornando um dos santos mais representados no início da história da pintura italiana. 

Depois de passar por Belo Horizonte e Rio de Janeiro, chega agora a São Paulo uma exposição sobre o período mais intenso da representação do São Francisco entre pintores italianos, que vai do século 15 ao 17. Intitulada São Francisco de Assis na Arte de Mestres Italianos, a mostra será aberta ao público geral nesta sexta-feira, 15, no Museu de Arte Brasileira, o MAB, que fica na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). 

Ao todo, a exposição traz cerca de 20 obras de grandes nomes como Ticiano Vecellio, Pietro Perugino e Guido Reni. A mostra conta com curadoria dos italianos Giovanni Morello, especialista em História da Arte, e Stefano Papetti, diretor da Pinacoteca Civica Di Ascoli. Além das obras serem de artistas fundamentais para a arte italiana, as pinturas hoje fazem parte de grandes museus, como a Galleria Nazionale dell’Umbria e a Galleria Nazionale di Arte Antica di Roma, o que torna a etapa da exposição em São Paulo ainda mais importante. “O maior desafio da exposição é ter todas essas pinturas por tanto tempo”, afirma Papetti, que já está de volta à Itália, numa conversa com o Estado por telefone. 

O curador lembra que a mostra teve início em agosto do ano passado, em Belo Horizonte, e vai até abril em São Paulo. “É muito difícil conseguir um empréstimo por tanto tempo de museus italianos, são pinturas muito importantes.”

O visitante, em São Paulo, vai passar por um percurso que apresenta três núcleos temáticos, divididos não por cronologia, mas por representação do São Francisco. São eles Imagens, Os Estigmas e Conversas Sagradas. “Pensamos que seria mais fácil entender a iconografia de São Francisco dessa forma”, explica Stefano Papetti. “Na primeira seção, temos pinturas em que São Francisco é representado sozinho, com as principais características de sua figura. A segunda parte e é dedicada ao evento mais importante de sua vida, que foi o fato de ele ter sido o primeiro homem a ter em seu corpo os estigmas do Cristo. Já a terceira traz representações com outros santos.”

O que talvez tenha influenciado para o São Francisco ser um dos santos mais populares da Igreja Católica é o fato de ele ter sido o primeiro homem a receber, em vida, os estigmas de Cristo. Na primeira parte da exposição, o público vai poder ver Francisco pintado em épocas diferentes, mas com igual destaque para as marcas em suas mãos e pés. “O fato de ele ter sido o primeiro homem a ter em seu corpo os estigmas de Cristo foi muito importante para a sua figura”, acredita Papetti. 

É neste primeiro núcleo da mostra, intitulado Imagens, que está a pintura que talvez seja a mais importante da exposição, São Francisco recebe os estigmas, do artista italiano Ticiano Vecellio (c.1480/1485-1576). “É uma grande peça de Ticiano e uma pintura muito importante, do período final de sua vida, pintada quando tinha por volta de 80 anos”, explica Papetti.

A pintura destaca os estigmas com uma ligação direta entre São Francisco e Jesus Cristo. De outras formas, mas com igual destaque, a figura do santo exibe as feridas, principalmente nas mãos, em obras de nomes como Perugino e Cigoli. “As pinturas eram muito importantes para espalhar a história e a vida de São Francisco”, esclarece o curador. “São Francisco foi especialmente representado na segunda metade do século 15, depois do Concílio de Trento, quando ele foi declarado um santo cuja vida era muito similar à de Cristo.”

Para o especialista em arte italiana deste período, Luiz Marques, ouvido pelo Estado, há de fato, na representação da figura de São Francisco, uma ligação muito forte com a do próprio Cristo. “A mão dele sempre mostra fortemente que ele tem um estatuto especial”, diz. “A iconografia é muito voltada para a parte mística e menos para a social do São Francisco.”

Esta representação, no entanto, segundo ele, é mais forte a partir do século 15, período inicial da exposição. Antes, a figura de Francisco era a do chamado “Pobrezinho de Assis”, com um foco maior nas ações e milagres do santo. “São Francisco morre em 1931 e logo depois da sua morte a Igreja Católica percebe a força da ordem franciscana”, explica Marques. 

“As primeiras biografias dele vão ser fortemente pontuadas em grandes pinturas na Toscana e vão chegar ao seu ápice em Assis, quando Giotto (di Bondone, 1266-1337) faz uma série de afrescos na basílica franciscana”, afirma o especialista. Para ele, a história do São Francisco está diretamente relacionada ao início da história da pintura italiana. 

Penitência e santidade

Ainda na primeira seção, surge uma representação do São Francisco que se tornou uma das mais conhecidas do santo, acompanhada de uma caveira, como visto em São Francisco contemplando um crânio, de Cigoli (1559-1613). “É um típico objeto que encontramos em suas figuras. Ele tinha a mesma vida de Cristo, então é comumente representado vendo sua cabeça”, afirma Stefano Papetti. “É uma meditação sobre a morte.”

Para Luiz Marques, o quadro de Cigoli é uma rara representação de São Francisco, por estar apenas com a caveira. “Geralmente ele está em interação com a imagem de Cristo.” O especialista explica que é uma ideia comum também na representação de outros santos, como São Jerônimo. “É o santo eremita, na caverna em meditação, a ideia de que está contemplando a morte.”

Ainda com a presença da caveira, a segunda parte da exposição, Os Estigmas, traz Francisco numa representação mais ligada à penitência, como na obra São Francisco de Assis mostrando o crucifixo, de Annibale Carracci (1560-1609). “É um quadro típico da ideia de convocar o fiel para a penitência, adoração da cruz”, explica Marques.

Outra representação que surge na iconografia do São Francisco, especialmente a partir do século 15, é a presença de uma segunda figura humana nas pinturas. “A presença de um outro franciscano que presencia os milagres”, esclarece o especialista. “No século 15 é essencial que haja uma testemunha.” O São Francisco aparece também, em alguns quadros, como uma figura mais idosa. “É uma cena de grande poesia. Segundo sua biografia, na velhice ele sentia muitas dores”, afirma Luiz Marques. “Aparece um anjo que toca música, numa espécie de consolação do santo velho.”

Na terceira e última etapa da mostra, São Francisco é visto com outros santos, como na obra Virgem com o menino entre os santos Sebastião, Antônio, Francisco e Roque de Cola Dell’Amatrice (1480-1547). “É a chamada Sacra Conversação, que traz Maria com Jesus e alguns santos”, esclarece Marques. “Antes, as figuras santas se dividiam num políptico. Com o Renascimento, todas as figuras são levadas para um mesmo espaço e se cria a conversação.”    

Animais

Na opinião do curador Stefano Papetti, a comum representação de São Francisco que se vê no Brasil e em outros países latinos, na companhia de animais, é rara na Europa. “Na Itália temos apenas algumas figuras com pássaros, mas em afrescos que não pudemos levar para o Brasil”, explica. Segundo ele, em seu país é comum ver uma representação de outro santo franciscano, Antônio de Pádua, como protetor dos animais.

No entanto, para o especialista Luiz Marques, a representação latina para São Francisco tem uma explicação, por conta de sua ligação com a natureza, como recentemente foi explicado pelo Papa Francisco numa encíclica intitulada Laudato si'. “É uma ideia ecológica, traz de volta uma tendência dos franciscanos de panteísmo, que Deus está presente em tudo.”

 

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