Mostra evidencia o artista e educador de vanguarda Rubens Gerchman

Casa Daros, no Rio, abre exposição que mostra seu papel fundamental como criador da Escola de Artes Visuais, em 1975

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2014 | 02h00

RIO - Em 1975, quando foi indicado por Lina Bo Bardi ao governo do Rio para dirigir o então Instituto de Belas Artes, no Parque Lage, Rubens Gerchman (1942-2008) chegou a hesitar. Deveria assumir, em plena ditadura militar, o desafio de transformar uma escola tradicional em “um espaço renovador para o ensino das artes”, como desejava? A amiga o convenceu com um conselho simples: “Aceite! E, se achar que deve sair, então peça demissão.” Gerchman concordou. Redigiu, com a ajuda de Lina, a carta demissional, e passou a ir trabalhar com o papel dobrado no bolso. Nunca precisou sacá-lo.

A atuação decisiva do artista plástico carioca à frente da instituição, que, rebatizada simbolicamente como Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage (para remover “ranços do passado”), se tornou o principal polo de criação e reflexão artística da cidade, do qual sairiam artistas como Daniel Senise e Beatriz Milhazes, é o tema da mostra Rubens Gerchman: Com a Demissão no Bolso, a ser aberta neste sábado, 9, pela Casa Daros. 

Nas paredes do espaço expositivo, uma linha do tempo registra os principais movimentos de Gerchman em sua trajetória como artista múltiplo e educador, culminando em 1979, quando ele deixou o cargo na EAV. Do acervo do Instituto Rubens Gerchman, mantido em seu antigo ateliê, foram reproduzidos fotografias, cartazes e páginas de jornal, um material que nunca havia sido exibido antes. A capa do disco Tropicália, de 1968, de sua autoria, é uma das curiosidades.

“Ele guardou tudo isso por 40 anos, tinha interesse que essa história fosse contada. A EAV foi uma grande obra dele”, explica Clara Gerchman, filha e curadora do acervo, que, atendendo a um pedido seu no fim da vida, deu início à pesquisa que originou documentário homônimo da exposição, que será exibido. São depoimentos de parceiros da EAV, como Helio Eichbauer, Carlos Vergara, Xico Chaves e Jards Macalé, que apontam para o caráter libertário da direção de Gerchman, para quem a EAV era um espaço de convívio e de ensino transdiciplinar, focado em perspectivas contemporâneas e 24 horas aberto, com oficinas comunicantes de dança, teatro, artes plásticas, música. 

“O arquivo do instituto é extenso e daria muitos recortes. Essas histórias precisam ser contadas às novas gerações, pois essa escola produziu algo comparável à Bauhaus (escola de vanguarda alemã dos anos 1920)”, considera o diretor de arte e educação da Daros, Eugenio Valdés Figueroa, que divide a curadoria com Clara. 

“Não somos iconoclastas”, disse Gerchman em 1976 para explicar suas intenções, polêmicas aos olhos dos alunos. “O que pretendemos aqui na EAV, ao contrário de destruir tudo, é preservar, desde o prédio de arquitetura italiana do século passado (19), até o nível do que se ensina. Mas dentro de um critério de contemporaneidade”. 

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