Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Mostra em SP resgata produção e pioneirismo da artista Ione Saldanha

Exposição no Masp reúne 200 obras da gaúcha, pioneira na técnica da pintura que pode ser arranjada como instalação

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2021 | 15h00

A artista gaúcha Ione Saldanha é venerada em alguns círculos, especialmente entre os admiradores de Volpi e Vieira da Silva, mas não tem a projeção que merece. Foi pensando nisso que o diretor artístico do Masp, Adriano Pedrosa, resolveu organizar a exposição Ione Saldanha: a Cidade Inventada. Com ajuda de Laura Cosendey, assistente curatorial do museu, Pedrosa reuniu aproximadamente 200 obras criadas ao longo de cinco décadas de trabalho para a mostra, aberta nesta sexta, 10, que será, segundo o curador, “a mais abrangente e a única da artista em 36 anos na cidade de São Paulo”.

Nascida em Alegrete, Rio Grande do Sul, em 1919, Ione Saldanha mudou-se para o Rio no final dos anos 1940, onde estudou primeiramente, em 1948, com o pintor Pedro Luiz Correia Araújo (1874-1955), seguindo, em 1951, para a Europa, onde cursou a técnica de afresco na Académie Julian, em Paris, e em Florença, na Itália. Obras dessa época incluem muitas telas figurativas (casarios, retratos), antes de Ione se dedicar à abstração geométrica nos anos 1960, década marcada pela experimentação em novos suportes. Ela, então, abandona a superfície bidimensional, passando a pintar sobre carretéis (bobinas de madeira para cabos elétricos), ripas e bambus - trabalhos nesse suporte identificam quase que imediatamente a obra de Ione, pintura que pode ser arranjada como instalações, sendo ela pioneira no formato.

Esse pioneirismo, reconhecido por críticos importantes como Mário Pedrosa, levou Ione a ser convidada para participar de dez edições da Bienal de São Paulo (com prêmio aquisição em 1967, e sala especial em 1975 e 1979). Pedrosa, inconformado com a tímida presença de Ione no cenário artístico da época, escreveu que a pintora foi “negligenciada na história da arte brasileira do século 20”. O curador da exposição, Adriano Pedrosa, concorda: “Ela foi muito reclusa, não gostava de grupos, mas poderia ter a dimensão de Oiticica e Lygia Clark, pois sua obra também lida com questões como a quebra da moldura e a conquista do espaço pela cor, uma pintura potente e coerente, que evolui nas seis décadas de atividade artística de Ione”.

‘Idioma particular’

A cor e o construtivismo “faziam parte do seu idioma”, diz Pedrosa, que selecionou desde obras dos anos 1940 - paisagens urbanas - a construções arquitetônicas abstratas dos anos 1950, até chegar à pintura sobre suportes tridimensionais. A icônica série Bambus tem presença marcante na exposição do Masp, cujo título (A Cidade Inventada) foi cunhado pela confluência entre arquitetura e reinvenção da urbe. “Os Bambus, seus trabalhos mais complexos, são esculturas que evocam a cultura brasileira popular”, observa Pedrosa. “De caráter antropomórfico, fazem referência tanto à cidade e à floresta”. Pedrosa, que é do Rio, não conhecia tanto a trajetória dessa pintora singular. Mas ficou apaixonado por sua obra ao montar a exposição, a ponto de criar uma bolsa com o nome da artista dedicada a pesquisadores. Há muito, por exemplo, a estudar sobre a icônica série dos Bambus, diz. 

Esses Bambus, elaborados como colunas ascensionais, mais de uma vez, foram associados por críticos e curadores à produção pictórica de Alfredo Volpi (1896-1988) - e nunca é demais lembrar a presença marcante de Matisse na pintura dos dois. Com efeito, há três anos foi realizada uma exposição na Galeria Ipanema, do Rio, com curadoria de Paulo Venâncio Filho, reunindo 66 obras de Volpi e 20 de Ione, evidenciando pontos de conexão entre os dois: ambos tinham como meta a economia de meios, a precisão e o método artesanal de preparo dos suportes, estabelecendo com o espectador empatia imediata.

Luminosidade

O curador Venâncio Filho, a propósito da linguagem cromática dos dois pintores, escreveu que em ambos os trabalhos “existe um fundo quase impressionista, uma vibração que fraciona a luz e faz pulsar uma musicalidade ininterrupta”. São dois coloristas “francos”, definiu, justificando: “Os verdes, azuis e laranjas imprimem uma ‘luminosidade meridional’ que resultam numa experiência de ‘alegria saudável’ no panorama da arte brasileira”.

Outra afinidade eletiva de Ione foi a pintora portuguesa Vieira da Silva (1908- 1992). A transmutação da polis moderna, vista como um exuberante jogo cromático em Vieira, vira síntese construtiva na pintura da brasileira, “para diluir-se depois, com os mesmos elementos da geometria”, como observou o crítico Roberto Pontual. O primeiro elemento que salta aos olhos, na obra de Ione, são as despojadas ripas. Quando a tela é abandonada, essas ripas ganham nova interpretação ao remeter o espectador à realidade rural, em particular a terra da pintora gaúcha. Ione é Brasil em estado puro.

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