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Mostra em São Paulo cobre 55 anos da obra de Ramón Cáceres

Pintor foi tema do último texto escrito por Theon Spanudis

Antônio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2015 | 03h00

Pouco antes de morrer, em setembro de 1986, já no leito do hospital, o psicanalista, crítico de arte e colecionador grego Theon Spanudis (1915-1986) ditou à cunhada Bárbara um último texto, sobre o pintor paraguaio Ramón Cáceres, radicado no Brasil desde 1970. Spanudis, cujo centenário de nascimento será comemorado em novembro com uma mostra da coleção que doou ao Museu Arte Contemporânea (MAC), ganhou antes três exposições em sua homenagem. Duas foram abertas em maio, uma na Praça Victor Civita e outra na galeria Art Station, recém-inaugurada no Shopping D&D, justamente com 22 obras de Cáceres. A terceira continua em cartaz até dia 30 deste mês, na Galeria de Arte Sérgio Caribé. A mostra traz 48 pinturas de vários períodos, inclusive as primeiras, realizadas no Paraguai quando Cáceres era ainda pintor figurativo.

Entusiasta do artista paraguaio, hoje com 71 anos, o crítico Spanudis, no derradeiro texto, compara a obra de Cáceres ao trabalho de Volpi, que ajudou a promover como um de seus primeiros colecionadores. “Se as bandeirinhas de Volpi simbolizam festividades populares e religiosas quando ele cultiva a forma de ogiva gótica, exaltações e elevações místicas, as bandeiras de Ramón parecem simplórias e até pobres.” Note o verbo. Apenas parecem. Na verdade, essas bandeiras desfraldadas descartam as linhas retas como se fossem “bandeiras comuns de navios açoitadas pelos ventos”. E entusiasmavam Spanudis tanto quanto as “bandeirinhas” volpianas. Além da “polifonia cromática”, elas traduziam para ele um construtivismo não filiado a escolas ou movimentos, mas ancorado no conhecimento de arte que Cáceres acumulou como restaurador de obras históricas - de Portinari, Di Cavalcanti e da coleção Matarazzo.

Spanudis conheceu o pintor em 1984, numa exposição individual no Masp dedicada a ele pelo então diretor do museu, Pietro Maria Bardi. Na época, Cáceres mantinha um ateliê de pintura e restauração no Itaim Bibi. Em maio do ano seguinte, Spanudis assinou a primeira crítica sobre a obra do artista, destacando a “sólida formação” de Cáceres e os dois caminhos que se apresentavam à sua frente: o construtivo e o onírico, “algo surreal e romântico”.

Pinturas desse período estão na mostra da Galeria de Arte Sérgio Caribé, o que garante ao visitante a oportunidade de conhecer a obra do artista paraguaio antes e depois de sua mudança de rota para o abstracionismo geométrico. Nos trabalhos do período paraguaio, predominam as telas figurativas que evocam o universo pessoal do artista, formado em música e artes na Escola de Belas Artes da Universidade do Paraguai. Bom cantor popular, ele ainda mantém o hábito de se apresentar com seu trio, quando não está pintando em Sousas, distrito de Campinas, onde mora.

Curador de sua exposição, o crítico Enock Sacramento diz que o entusiasmo de Spanudis pela obra de Cáceres é justificável. Volpiano apaixonado, o crítico grego destacou a curva das bandeirinhas de Cáceres que, para Sacramento, “é justamente a responsável pela leveza de suas telas”. 

RAMÓN CÁCERES

Galeria de Arte Sérgio Caribé. R. João Lourenço, 79, Vila Nova Conceição, tel. 3842-5135. 2ª a 6º, 10h/19h. Até dia 30.

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