Mostra em Fortaleza reúne coleções das fundações Edson Queiroz e Roberto Marinho

'Abstrações' promove um encontro histórico entre acervos muito ricos

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

19 de julho de 2014 | 02h01

FORTALEZA - Duas grandes coleções são reunidas para contar a história da evolução da arte brasileira no século 20. Mais particularmente, de um segmento importante que se firmou após a realização da 1ª. Bienal de São Paulo, em 1951, e culminou com o advento dos movimentos concreto e neoconcreto nessa mesma década. De um lado estão 62 trabalhos que representam, em especial, o abstracionismo informal, pertencentes à coleção Fundação Roberto Marinho. De outro, 107 peças representantes do abstracionismo geométrico que integram a coleção da Fundação Edson Queiroz, de Fortaleza. Juntas, essas 169 obras fundamentais formam o corpo da exposição Abstrações, que a fundação cearense inaugurou na quinta à noite, no Espaço Cultural Unifor (Universidade de Fortaleza), com curadoria do crítico Lauro Cavalcanti.

É incomum que duas coleções formem um acervo capaz de contar a história do abstracionismo brasileiro sem grandes lacunas. Ainda mais raro é que o intercâmbio entre dois acervos e Estados brasileiros resulte numa ação exemplar como essa das duas fundações. Comprometidas com a educação visual no Brasil, ambas encontraram um curador capaz de mostrar, de forma didática, como artistas de diferentes linguagens e gerações fizeram da abstração sinônimo da boa arte brasileira do século 20. E mais: como os contemporâneos construíram uma ponte entre ambas as vertentes do abstracionismo, fundindo informalismo e geometria num único corpo.

O curador Cavalcanti lembra a polêmica entre os críticos Mário Pedrosa, que defendia o abstracionismo (foi o primeiro a assumir sua defesa), e Sérgio Milliet, que recomendava distância “das decadentes brincadeiras abstratas” aos pintores modernistas, comprometidos com a “realidade” brasileira. Pedrosa, contrário à posição de Milliet (também a de Mário de Andrade), considerava os abstratos mais sintonizados com as questões da modernidade. Essa resistência ao abstracionismo, aliás, entediava Lygia Pape, uma das artistas da exposição, como cita seu ex-aluno Lauro Cavalcanti: “Certa vez, num debate público do MAM carioca, nos anos 1970, ela lembrou aos que insistiam em classificar a arte abstrata de não brasileira a existência das casas coloridas e geométricas do sertão e a pintura dos índios”.

Lygia Pape é um dos destaques da coleção da Fundação Edson Queiroz, ao lado de Lygia Clark, Mira Schendel, Volpi, Hércules Barsotti, Sérgio Camargo, Amilcar de Castro, Antonio Dias, Ivan Serpa e os concretos paulistas (FIaminghi, Sacilotto, Charoux). Na sala dos abstratos informais, destaca-se o pioneiro da abstração brasileira, o cearense Antonio Bandeira, além das pinturas de Tomie Ohtake, Manabu Mabe, Yolanda Mohaly e Jorge Guinle Filho, todas pertencentes ao acervo da Fundação Roberto Marinho. 

Ao contrário da fundação cearense, que apostou na diversidade de linguagens e artistas, a fundação carioca decidiu concentrar esforços em torno de alguns nomes – a coleção Roberto Marinho, num país em que os acervos institucionais são insuficientes para traçar um quadro histórico, elegeu poucos artistas para acompanhar melhor sua evolução, entre eles uma pintora hoje injustamente eclipsada, Maria Polo (1937-1983), de origem italiana. O curador selecionou três telas pintadas nos anos 1960 pela artista, que foi aluna do pintor metafísico Filippo de Pisis.

A exemplo das italianas Maria Polo e Anna Maria Maiolino, o curador Lauro Cavalcanti escolheu obras de alguns artistas estrangeiros que fixaram residência no Brasil, como a suíça Mira Schendel e os japoneses Manabu Mabe e Tomie Ohtake, ou que passaram uma longa temporada no País, caso da pintora portuguesa Vieira da Silva. “Ela teve uma presença intensa no cenário artístico brasileiro e foi aqui que seu trabalho atingiu o ápice”, observa o curador. O legado desse primeiro momento abstracionista, analisa ele, fez com que nossos artistas contemporâneos “dissolvessem os antagonismos entre os informais e geométricos”, conclui.

Como prova, ele apresenta o núcleo formado pelas obras de Luiz Áquila e Ione Saldanha, de intenso jogo cromático, ao lado de uma imaculada escultura de mármore branco de Sérgio Camargo. Volpi, que jamais se filiou a grupos – a despeito da tentativa de enquadrá-lo entre os concretos – é o exemplo maior de convivência pacífica entre elementos racionais, construtivos, e pincelada subjetiva, emotiva. “Temos também, lado a lado, uma escultura construtiva de Waltercio Caldas e a desconstrução de Iole de Freitas”, prossegue, para chegar ao centro da exposição, uma tela do francês Pierre Soulages, considerado por alguns críticos o maior pintor abstrato vivo. A princípio, o óleo de Soulages (intitulado 9 octobre 1960), único artista estrangeiro da mostra que não se radicou no Brasil, parece deslocado, mas basta lembrar a sua ressonância entre os contemporâneos brasileiros (a paulista Célia Euvaldo, por exemplo) para justificar a inclusão da obra, pertencente à coleção da Fundação Roberto Marinho, que visita, pela primeira vez, o Nordeste. O Sudeste não precisa ficar com inveja. A mostra, inspiradora, virá para o Rio de Janeiro e São Paulo no próximo ano.

ABSTRAÇÕES

Espaço Cultural Unifor. Av. Washington Soares, 1.321, Fortaleza. 3ª a 6ª, 9 h/19 h; sáb., 10 h/18 h; dom., 12 h/18 h. Grátis. Até 11/1. 

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA FUNDAÇÃO EDSON QUEIROZ

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